Falando do meu processo criativo – repetições

Crédito: Banco de imagens free (Ms Office)

Qualquer escritor sabe o quanto de verdade existe  no ditado: “Escrever é 1% inspiração e 99% transpiração”. Acredito que esse percentual seja exagerado, mas, por experiência própria, coloco pelo menos 75% na conta do trabalho pesado.

Escrever precisa começar com um flash, uma inspiração, algo que nos abre as portas do mundo imaginário, que nos permite subir uma escada íngreme e espiar esse mundo paralelo, convidando personagens a fazer parte do nosso livro. Esse é o momento do frenesi, da visita ao mundo que todo escritor tem crachá especial para acessar, para captar as histórias, esse outro mundo que pode ser o sótão onde mora a nossa louca imaginação, como diz Rosa Montero em seu livro A louca da casa.

Mas depois que voltamos para nossa cadeira (de preferência, confortável), depois que essa primeira etapa se conclui, o resto é transpiração, trabalho, percepção, recorte. Sim, muito mais apagar do que escrever. De saber desistir, às vezes, de parágrafos inteiros, ou de um capítulo inteiro. Ou de um romance inteiro, como eu já fiz. Sim, já desisti de três romances durante os últimos anos. Mas isso é assunto para outro post. O que importa é que essa é a parte mais difícil, a do desapego, de saber que a primeira versão é um rascunho, tem o âmago do livro definitivo, mas não é o livro definitivo.

É nessa etapa que nossa carreira se desenvolve. Colocar uma história no papel, mesmo que seja um primeiro rascunho ruim, não é para qualquer um. Mas lapidá-lo como se tivéssemos uma pedra bruta nas mãos, isso é o que define um artista. Traduzir o bruto em peça rara, criar um diamante a partir de uma pedrinha de carbono. Essa etapa pede uma percepção aguçada para captar as falhas, lapidar as arestas. E não se lapida apenas o enredo, o traço dos personagens, se lapida a linguagem, a narrativa. Essa percepção está muito relacionada à maturidade de um escritor, pois quanto mais seguro ele está, mais ele detecta as imperfeições, percebe o que pode melhorar, no que derrapou, no que pode ser dito de forma inédita, numa representação que passe longe do clichê.

Nessa fase, buscamos muita coisa, como disse acima. Buscamos também a correção gramatical, as terríveis repetições, os nossos vícios de escrita.

Sim, pois precisamos de uma leitura crítica em que se perceba, no conjunto, aquela palavra ou expressão que parece voltar sempre, em momentos diferentes, no nosso texto. E se não for algo proposital, se não for o âmago do nosso texto (por exemplo, no meu romance há uma palavra chave que é pressentimento), ela deve ser reduzida. Acredite, amigo, ela representa um vício.

E para curar esse vício, uso algumas ferramentas, como o bom “Localizar e Substituir” do Word.

Você nunca usou? Experimente, então.

Vamos supor que você percebe em sua 10ª leitura que está repetindo demais a palavra porta em seu texto. Parece que todas as portas do mundo foram parar no seu romance. Você pode ir no Word, no item de menu Substituir, pedir para pesquisar “porta” e mandar substituir por “porta” com uma formatação especial de realce. Veja exemplo na imagem acima, no qual procuro a expressão “ela”.

Do jeito como está, o Word vai achar “ela” até mesmo no nome “janela”. É interessante para descobrir aliterações internas. Para definir o formato especial de realce, basta clicar na caixa “Substituir por” e clicar no botão “Formatar”, selecionando a opção Realce. Mas repare que você precisa selecionar a cor do realce, no botão semelhante ao que aponto com a seta, que fica na barra de ferramentas, fora da caixa de diálogo. Se não selecionar a cor, ele vai trocar a palavra por ela mesma, sem cor nenhuma.

Com isso, todas as palavras portas serão realçadas com a cor pré-definida de realce, que é como se fosse uma espécie de caneta marca-texto. Depois é só avançar as páginas do seu texto, e perceber a frequência e a proximidade da sua palavra alvo.

Agora, uma dica: antes de uma operação dessas, sempre salve seu texto, ou salve uma versão anterior, pois se você tiver cometido uma falha no comando substituir, não correrá o risco de perder o texto. Exemplo de falha: mandar substituir porta por potra. Acredite, isso acontece.

Dica 2: se quiser voltar uma operação de substituir, basta ir na opção “Desfazer” ou o famoso <Ctrl><Z>.

Dica 3: para voltar o texto à posição normal, sem nenhuma palavra realçada, basta marcar todo texto e clicar no botão de realce, selecionando a opção “Nenhum”, que fica acima das cores.

Dica 4: Experimente essas operações num texto de exemplo, antes de usar no seu texto de ficção.

Dica 5: Só se preocupe em buscar essas palavras quando considerar seu texto fechado. Cuidar disso durante a criação é caminhar três passos pra frente e dois pra trás. Não há mal em lapidar repetições durante o processo de escrita, mas só se for algo que você perceba durante sua leitura.

Estou, atualmente, nesse trabalho árduo de lapidação. Há palavras que pesquiso normalmente como: ele, ela, mas. Todavia, em cada texto, percebo também meus vícios e vou atrás deles. E, nessa busca, melhoramos muito a narrativa. Mas esse tipo de busca só é interessante de fazer quando o texto está fechado.

Certamente chegará um dia que meus olhinhos vão fazer, automaticamente, esse realce que o Word executa tão bem. Mas enquanto isso não acontece, que mal há em usar uma boa ferramenta de auxílio?

Bom trabalho e bom feriado!

 

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Programa em família

Quando temos filhos com diferença grande de idade, chegamos numa fase em que precisamos fazer malabarismos para conseguir que a família continue junta nos passeios. Não é fácil. Há passeios que unem, por natureza, como praia, boliche e viagem. Mas quando se fala do lado cultural, a coisa complica.

Meu filho, de quase 14 anos, já não quer assistir aos filmes que minha filha, de 7 anos, se interessa. Da mesma forma, os filmes que lhe interessam não são possíveis para ela. Há poucos filmes que conseguem reunir a família toda, como foi o que vimos com o Rowan Atkinson, no qual ele era um espião. Aliás, boa dica quando sair em DVD. E quando se trata de peça de teatro, então? Aí é praticamente impossível.

Crédito: Divulgação - foto do Guia da Semana

Ontem, fomos ao Shopping da Gávea. Eu e Bia assistimos à peça “Sonho de Princesa”, no Teatro Vannucci. Enquanto isso, Gustavo e o pai foram para o cinema. Ponto pra mim, arranjo perfeito! Todos curtiram e tivemos um crédito positivo do dia.

Como adoro compartilhar a parte boa da vida, quero falar o que achei da peça.

Começo dizendo que gostamos bastante. Isso é algo bom numa peça teatral infantil. Não basta agradar às crianças, precisa agradar aos adultos também. Conseguir esse equilíbrio não é algo fácil. E os produtores de “Sonho de Princesa” conseguiram, mesmo sendo um programa para as crianças menores.

O estímulo à leitura permeia a história, que traz personagens conhecidos dos contos de fadas, para falar da importância de continuarmos acreditando e de valorizarmos a imaginação.

O espetáculo conta a história da menina Flora que encontra um livro no seu sótão. Ao abri-lo, ela é mandada para o mundo encantado das princesas, onde conhecerá Cinderela, Yasmin, Branca de Neve, Ariel, Bela (da Bela e a Fera) e Fiona (do Shrek). Lá, as princesas tentam convencê-la a ajudar a salvar o mundo encantado que está desaparecendo graças ao Nada, um vilão ardiloso que quer acabar com a história dos contos de fadas.

A direção e adaptação do texto é de Roberto Rezende. A produção de Roberta Marinho e Elisa Reis. No elenco: Débora Mesquita (Flora), Renata Antunes, Leticia Botelho, Érika Thomas, Maykon Robert (vilão Nada) e Thati Bione. Em cartaz até 26 de fevereiro. A classificação é livre, mas acho que agradará mais as crianças menores, até oito anos.

Recomendo!!!

Crédito: Site www.novaescoladeteatro.com.br

Hoje novo arranjo. A programação era apertada. Começava com teatro para mim e Bia, enquanto Gustavo e o pai iam para a patinação no gelo. Depois, ele iria ver uma comédia stand-up com o pai, enquanto as meninas iriam para as compras. Mas nos surpreendemos com lotação esgotada para a apresentação do Fábio Porchat. Então, só a metade do passeio foi concluído.

Eu e Bia assistimos “Cinderella – Um sonho em Veneza”, no Teatro Miguel Falabella.

O espetáculo nos remete ao século XVI, no ateliê de Leonardo Da Vinci. Durante o carnaval em Veneza, o pintor recebe uma encomenda para retratar uma princesa. Entre as moças da cidade, ele escolhe uma menina simples, mas de grande beleza: Cinderella. Contudo o que devia ser apenas um trabalho extra se transforma numa aventura, onde o mote principal é a imaginação. O mestre avisa: “Um quadro não é só um monte de tinta. Deve contar uma história”. Com isso, os quadros do ateliê ganham vida e ajudam a contar a história de Cinderella, numa adaptação especial, que muda a forma como devemos encarar o futuro e desejar nossos sonhos.

Figurino impecável, atuação primorosa de todos os atores, cenário perfeito, produção nota dez. Um espetáculo para qualquer idade. Bem, na realidade, as crianças muito pequenas talvez fiquem perdidas, mas a partir de seis/sete anos já é possível curtir bastante. Bia adorou! Cada faixa etária vai aproveitar uma parte do texto, apreender uma magia diferente.

O texto é de Pedro Murad. A direção de Gabriel Cortez e Bruno Macedo. No elenco: Kathleen Couto, Gabriella Kapps, Diogo Venturieri, Luciene Suarez, Roni Cruz, Bianca Carvalho, Kevin Couto, Luanna Passos, Marcelle Bessa, Mario Alves e Pablo Almeida. Em cartaz até 12 de fevereiro.

Super recomendo!!!

Se eu tivesse que criar um paralelo com o texto literário, diria que “Sonho de Princesa” é uma peça infantil enquanto que “Cinderella – Um sonho em Veneza” é uma peça infantojuvenil.

Então, para quem tem a boa desculpa de ter uma criança em casa, é só escolher e curtir! :)

 

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Eu estou nas nuvens… literalmente

Vocês conhecem a Nuvem de Livros (http://www.nuvemdelivros.com.br) ? É um projeto super bacana produzido pela Gol Móbile e que tem a curadoria do escritor Antonio Torres.

Do que se trata? É uma biblioteca virtual que contempla vários gêneros literários e não-ficção. O assinante lê online os livros que quiser, como se fosse um empréstimo. No acervo, estão mais de três mil livros, escolhidos pelo curador, em parceria com editoras nacionais e internacionais.

O lançamento aconteceu oficialmente na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, em agosto de 2011. O acervo está aberto a todo público, mas as escolas têm atenção especial. Os empréstimos custarão cerca de R$ 1 por aluno, para acesso a todos os livros. E para as pessoas físicas, custa R$ 0,99/semana.

Eu publiquei matéria a respeita da Nuvem de Livros nas edições 8 e 11 do Jornal Sobrecapa Literal.

Bem, por que eu disse que estou nas nuvens? É porque na quarta-feira recebi uma notícia maravilhosa. A Nuvem de Livros divulgou no twitter (http://twitter.com/nuvemdelivros) a lista dos livros mais acessados de dezembro. E adivinhem? Meu livro Caixa de Desejos ficou em 1º lugar e o livro De volta à Caixa de Desejos ficou em 5º lugar.

Estou mega-ultra-radiante!!!!

Fui mais acessada do que o livro 1822 do Laurentino Gomes. É como se eu fosse uma nova bestseller! ;)

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Batendo as perninhas para sair do lugar

Ontem aconteceu minha primeira aula de natação. Não, eu não sabia nadar. Como não sabia que podia realizar várias coisas na minha vida. Mentira, saber, eu sabia. Sempre soube. De forma inconsciente, mas soube. Nunca fui daquelas de sentar e chorar por não ter algo. Mentira também; chorar, já chorei bastante, mas desde menina a palavra “não” sempre teve um peso diferente. Um peso de ficar do lado de lá da balança, para eu saber que precisava fazer algo do lado de cá, do lado do “sim”, do positivo, para buscar as vitórias que viriam como o peso bom para balancear minha vida.

Ontem, quando o professor me deu um macarrão para colocar debaixo do braço e mandou eu atravessar a piscina, batendo os pés, me vi no início de tantas conquistas da minha vida. Havia alguns momentos em que eu batia os pés, mas não saía do lugar. E quando ele pediu para eu bater os pés e, ao mesmo tempo, mergulhar a cabeça e soltar o ar pelo nariz, pensei: “Isso não vai dar certo”!

Pode parecer idiotice, mas rola um problema de sincronismo. Meu filho diz que sou atrapalhada. Muita gente diz que sou enrolada. E eu concordo. Naquela situação: ou bem eu respirava debaixo d’água, ou bem eu batia os pés (risos). Tá, agora falando sério. Eram duas coisas novas. O meu grande problema é querer raciocinar sobre tudo que faço. Daí eu querer raciocinar o sincronismo entre as duas atividades. Lógico que isso não podia dar certo. Na nossa vida, temos que deixar uma parte acontecer como reação aos estímulos, senão a máquina não sai do lugar.

Ouvi uma história, há alguns dias, que achei muito interessante e que ilustra o que estou falando:

A lagarta morria de inveja ao ver a centopeia andar com tanta desenvoltura. Então, resolveu perguntar pra ela:

- Centopeia, como você consegue andar tão bem tendo tantas perninhas?

- É fácil, eu mexo primeiro as quarenta patinhas do lado direito e, em seguida, eu mexo as quarentas patinhas do lado esquerdo, e assim vou fazendo de forma repetitiva.

- Ah, então, me mostra na prática como é.

A partir desse dia, a centopeia nunca mais conseguiu andar.

Então, era isso que estava acontecendo no exercício. E é isso que ainda vai acontecer por algumas aulas, até que eu descubra que não tenho que pensar na minha respiração ou nas minhas pernas. Que preciso apenas fazer.

Nesse primeiro exercício, nas idas e voltas que dei, raciocinei em vez de deixar acontecer, e isso me fez errar várias vezes. Mas a parte importante: não desisti. E quando as pernas esqueciam de bater, ou quando eu esquecia de soltar o ar pelo nariz, eu pensava: “Ei, Cristina, você consegue!”

Consigo, como consegui muito em minha vida. Como marquei um vêzinho nos itens que desejei pra mim e conquistei.

Foi assim quando tirei carteira há dezessete anos, e tive que reaprender a dirigir há cinco anos, pois nunca peguei num carro nesse intervalo. Lembro que depois de fazer novamente autoescola, quando me vi sozinha com o carro, me parecia impossível soltar a embreagem no ponto certo, para tirá-lo do lugar. Quase sempre o carro cabritava e morria. Por isso, naquele início inventei uma forma de me defender: evitava parar o carro, com medo de ter que fazê-lo se mover novamente. Vocês podem imaginar as confusões em que eu me metia! Mas eu consegui. E hoje, modéstia à parte, dirijo muito bem. :)

Foi assim também quando fui fazer dança de salão. Lembro que parecia impossível prestar atenção na música e, ao mesmo tempo, executar os passos. Ou prestar atenção na condução do meu parceiro e dar minha resposta com os pés. Mas o que parecia impossível aconteceu. Eu ganhei confiança em mim, eu parei de raciocinar a respeito, e deixei meu corpo adquirir o conhecimento. Quando o estalo aconteceu, passei rapidamente da turma básica para a avançada, a tal ponto que conseguia dançar de olhos fechados, respondendo apenas à condução do cavalheiro.

Foi assim também quando resolvi ser escritora. Nesse ponto, o único problema de sincronismo que enfrentei foi escrever e continuar trabalhando como analista de sistemas. Isso sem contar o tempo dedicado à minha família. Não era fácil, mas eu também consegui: não só arranjar tempo para escrever, para viver plenamente dessa minha paixão, como aprender, texto a texto, o que eu podia fazer melhor. Aprender o que eu devia deixar pra trás, como se fosse uma embreagem solta no lugar errado, ou o pé trocado no passo de bolero. Nunca escrevi pensando se o que estava colocando no papel estava errado ou certo. Isso me facilitou desde o início, permitiu que eu escrevesse sem amarras. O que tive que aprender foi, a cada releitura, eliminar cada vez mais erros.

E talvez essa seja a ideia da maturidade: aprendermos cada vez mais a eliminar o que é ruim na nossa vida, o que nos impede de melhorar.

Batemos as pernas quando decidimos fazer algo, e, às vezes, parece que esse algo está muito distante, ou que estamos dando dois passos pra frente e um pra trás. Parece que batemos as pernas e, em muitas vezes, não saímos do lugar. Mas é só questão de lembrar que é preciso deixar acontecer. É preciso não desistir, deixar que aquilo faça parte do nosso sangue, da nossa vida, que se torne, na repetição de cada exercício, na tentativa de não desistir, uma verdade… até o dia em que se torna uma conquista.

Ontem, quando batia as pernas e não saía do lugar, eu pensava: “Cristina, não desista”. É apenas o primeiro passo.

Então, para todos que criaram planos para 2012, eu digo, de coração: continuem batendo as pernas, até chegar o momento em que vocês vão se esquecer que estão fazendo isso. Nessa hora vocês terão saído do lugar!

Beijinhos literários e boa semana!

(A minha semana maravilhosa começou hoje… Uhu! Estou de férias!)

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Sorteio dos meus livros

Para começar bem o ano, vou sortear dois exemplares dos meus livros “Caixa de Desejos” e “De volta à Caixa de Desejos”, sendo um de cada.

O sorteado pode escolher qual dos dois quer levar.

As inscrições começam hoje e terminam à meia-noite do dia 12/01/2012. O sorteio será feito na sexta-feira, dia 13/01/2012.

Só que esse sorteio é exclusivo para quem tem twitter.

As regras são simples:

1 – Seguir minha conta no twitter (@anacristinamelo)

2 – Dar RT na frase: “Confira o blog Canastra de Contos da escritora Ana Cristina Melo, em http://kingo.to/Xck.”

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Atualização em 13/01/2012:

O resultado já saiu e está disponível em http://beta.sorteie.me/r/ikE.

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Meu encontro com “A louca da casa”

Não lembro quem me indicou esse livro pela primeira vez. Mas a ideia não me abandonou: ler o quanto antes A louca da casa de Rosa Montero. Procurava as edições nas livrarias e não estava disponível.

Na última Bienal, entrei no estande da Ediouro para comprar palavras cruzadas para os meus filhos, quando resolvi conferir a seção de literatura. Para minha surpresa, o livro – um pocket book – estava lá na seção de saldo. Sorte minha. Um pecado com a obra!

Ele foi para minha estante, para entrar na fila do “a ler” (ver post “Livros que pretendo ler em 2012″). Depois do post, recebi os incentivos dos amigos Flavia e Marcelo e decidi colocá-lo no topo da fila.

Hoje, iniciei sua leitura, em paralelo com Claraboia do Saramago. Resultado: estou FASCINADA!

É um livro fantástico! Em um dia cheguei praticamente na metade dele. Algo fácil, diante da narrativa que é cativante e fluida. Rosa mistura ensaio sobre a arte de escrever com suas próprias experiências. Uma simbiose perfeita. 

Como diz na quarta capa, “o fascinante universo revelado neste livro indefinível é resumido com perfeição na frase de Santa Teresa de Jesus: ‘A imaginação é a louca da casa’”.

Rosa é escritora e jornalista e traduz nossos altos e baixos nesse livro com precisão cirúrgica. Ouvi o eco de minhas crenças e angústias.

Sempre digo que escrevo 24 horas por dia, pois escrevo a cada respiração, a cada olhar, a cada passo. Rosa confirma isso quando diz “que se escreve sobretudo dentro da cabeça. É um runrum criativo que nos acompanha enquanto estamos dirigindo, ou levando o cachorro para passear, ou na cama tentando dormir. A gente escreve o tempo todo.”

A autora também me ajudou em uma das minhas maiores loucuras, a de ficcionar qualquer situação na minha vida, logo sacando da carteira o “e se”, para dar início a uma ficção com direito a passado, presente e futuro.

Escritores, ouçam meu conselho! Leiam esse livro. Reflitam sobre cada capítulo. Alegrem-se por encontrar uma voz tão próxima. Reflitam com as constatações que somos todos loucos de um jeito especial. Uma loucura sadia, que nos toma todos os segundos, mas que precisa de controle.

Gostaria de citar aqui todas as passagens que marquei, tudo que assinalei como “Muito bom!”. Mas acabaria transcrevendo o livro todo e isso não posso.

Apenas vou provocá-los com uma última frase: “Enquanto permanecem no rutilante limbo do imaginário, enquanto são somente ideias e projetos, seus livros são absolutamente maravilhosos, os melhores livros que já foram escritos”.

Conclusão: mesmo sem terminar o livro, já classifico A louca da casa, de Rosa Montero, como o meu 1º livro marcante de 2012.

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Algumas informações sobre o livro:

Título: A louca da casa
Autora: Rosa Montero
Editora: Ediouro
Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht

Quarta capa:

Em A louca da casa, Rosa Montero propõe aos leitores um jogo narrativo cheio de reviravoltas. Mistura de romance, ensaio e autobiografia, nele se confundem literatura e vida, como num baú mágico cheio de surpresas.

E assim descobrimos que o grande Goethe adulava os poderosos até chegar ao ridículo, que Tolstói era um energúmeno, e que a própria Rosa, aos 23 anos, manteve um excêntrico e hilariante romance com um ator famoso. Mas não devemos confiar em tudo o que a autora conta sobre si mesma: as lembranças nem sempre são o que parecem.

O fascinante universo revelado neste livro indefinível é resumido com perfeição na frase de Santa Teresa de Jesus: “A imaginação é a louca da casa.” Um livro sobre a fantasia e os sonhos, sobre a loucura e a paixão, sobre os medos e as dúvidas dos escritores e dos leitores.

Em um percurso pelos caminhos sinuosos da fantasia, da criação artística e das lembranças mais secretas, A louca da casa é, antes de mais nada, a tórrida história de amor e de salvação entre Rosa Montero e sua imaginação.

Sobre a autora:

Rosa Montero nasceu em Madri, em 1951. Trabalhou nos principais veículos da imprensa espanhola e desde 1976 é colunista exclusiva do jornal El País. Autora de vários textos jornalísticos, estreou como escritora em 1979, com Crónica del desamor. Depois vieram várias obras, entre elas A filha do canibal, lançada pela Ediouro em 2007, que lhe rendeu o prêmio Primavera.

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Esse final de semana é de passeio com as crianças e de fechar a edição de janeiro do jornal Sobrecapa Literal.

 

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O direito de abandonar

Banco de Imagens Free (MS-Office)

Tempo. Tempo livre. Quisera eu ter o tempo ao meu dispor. Colocar minha cadeira de couro, tão confortável, de frente para o quintal, escrever durante algumas horas, parar, folhear um romance, me embriagar de palavras repletas de vida e ficção e depois voltar ao meu próprio texto.

Isso não existe pra mim. Minha rotina começa às 5h30. Saio às 7h para levar as crianças até a escola, depois sigo para o trabalho, para chegar às 8h se o trânsito estiver de boa vontade comigo. Bato o ponto de saída às 16h, vou me encontrar com o maridão, para voltarmos juntos, esperando chegar em casa entre 17h30 e 18h30. Em casa, tempo para os filhos, para um jantar rápido, e depois o tempo zapeando as redes sociais e a caixa de e-mails até a hora que eu desmaio de sono sobre o teclado.

Em que horário eu escrevo? Simples.

- No trajeto de casa para o trabalho e/ou
- Nos 45 minutos roubados do meu almoço que é praticamente engolido e/ou
- No trajeto do trabalho para casa e/ou
- Em algumas horas no final de semana antes dos meus filhos acordarem.

- Exceção: Num final de semana inteiro quando tenho algum projeto para entregar.

E o tempo para ler? Simples também.

Eu encaixo no trajeto de casa até os locais de lazer (nos passeios em família), no trajeto do trabalho para casa (quando estou cansada para revisar meus textos), nas filas ou espera do metrô, ou, raramente, em algum momento que paro e me dou meia hora sentada no sofá de casa, para só e somente só ler. (E pensar que na época de solteira eu costumava ler um dia inteiro, sem conseguir parar antes de chegar ao ponto final)

Por esse motivo, ultimamente ando malvada. E malvada significa: abandonar leituras que não estão me agradando.

Não tenho mais tempo a perder. Estou com 3.9 na quilometragem da vida. Cheia de textos na gaveta para serem revisados, cheia de planos de novos textos para serem criados, com dois filhos lindos para criar… E uma aposentadoria que só vem daqui a 15 anos. É, definitivamente, não dá para perder horas preciosas com textos sufocantes.

Aprendi na prática que só tem um tipo de texto que merece segunda chance: os clássicos.

Sim, pois se abandonamos um texto clássico pode ser que o problema seja temporal. No caso, nosso. Ainda não estamos prontos para ele. Mas também é verdade que talvez nunca estejamos. E isso é um fato. Não somos obrigados a gostar de todos os clássicos. Temos o direito de simplesmente dizer: “não me agradou”.

Mas enquanto não chegamos a esse veredicto na relação texto-leitor é preciso conceder novas chances. Não aos clássicos, mas a nós mesmos, para continuarmos tentando.

Eu vivi isso. Lembro que a primeira vez que peguei Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis (escritor que é um dos meus preferidos), eu fiquei com cara de paisagem. Mais que isso, fiquei com cara de “what loucura is that?” (Assim mesmo, misturando inglês e português, pois tive que substituir uma das palavras, já  que não ficaria bem eu colocar aqui.)

Não deu. E olha que já tinha lido todos os romances da primeira fase dele, tinha lido Dom Casmurro e ficado fascinada. Mas não rolou com o Brás Cubas. Deixei de lado. Tudo bem, podia ser que um ou outro livro dele eu não curtisse. Mas aquilo me deixou encafifada. Se eu gostei de todos os romances, de todos os contos, por que esse livro não descia?

E não me lembro quanto tempo depois eu voltei a ele. Comecei a reler e tudo já tomou outra forma, ali mesmo na introdução, na carta de Brás Cubas ao Leitor. Peraí, nessa segunda leitura, eu já sabia quem era Stendhal, Sterne ou Xavier de Maistre. Uau! O novo primeiro contato tinha melhorado. E daí não mais parou. Cada capítulo, frases e frases marcadas, que me sacudiam, me diziam muito, me ensinavam, me desensinavam. Sim, também temos que “desaprender” com os livros. Saber demais atrapalha a escrita. Cada capítulo avançado e eu dizia: “Uau, ele é o máximo!”. Quanta intertextualidade! Quanto domínio! E pronto. Nada mais havia de estranho no meu amor por Machado de Assis.

Então, a Machado concedo essa distinção. A outros autores clássicos também. Mas aos contemporâneos não perdoo mais. Sou até benevolente. Dou-lhe um terço do livro para me conquistar. Mas se não conseguir, que se vá para minha estante, até o dia em que eu aprenda o desapego literário e resolva doá-lo.

Estou com dois livros assim. Num deles tive que aturar uma frase “Até agora, estava tudo um tédio”. Se fosse apenas falhas no texto ou na edição, eu perdoava. Mas a história estava arrastada, cansativa. Chata! No outro, a crueldade gratuita me embrulhou tanto o estômago que larguei.

Mas há outros tipos de abandono que me permito. No caso, o abandono parcial. Explico. Descarto descrições enfadonhas, teorias que não me interessam ou trechos arrastados. Nessas partes, eu cruzo a página com meu olhar, que capta um grupo de palavras em cada parágrafo, suficiente para eu descobrir se o parágrafo é relevante para a história. Se não for, vamos ao próximo.

Terminei um romance há pouco que precisava chegar até o fim. Não vou dizer o motivo, porque entregaria o jogo. E se há algo que determinei pra mim é: se puder falar bem, vou espalhar aos sete ventos. Se não gostar, divido apenas com meu travesseiro ou uma amiga muito próxima. :)

Pois bem, adorei a primeira parte do romance. Um texto ágil, viciante. Mas ao chegar na segunda parte, ele se tornou maçante, repetitivo, sem sal. Eu contava as páginas para chegar à última página. O pior aqui foi que esperava ser surpreendida no final e não fui. Saco de literatura contemporânea que esquece de dar fim aos textos! Ter terminado com a sensação de que o romance teria sido bem mais proveitoso se encerrasse na primeira parte foi meio frustrante.

Voltando às boas descobertas, divido com vocês uma frase que acho fantástica do romance de Machado de Assis:

“… Marcela amou-me durante quinze meses e 11 contos de réis; nada menos.”

Nada menos que perfeito!

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Balanço da minha limpeza: mais três cadernos revisados. Dois deles tem o final do primeiro volume e o início do segundo volume de uma história juvenil de fantasia que criei há cinco anos. Chama-se “Trilogia de Alpha”. E o primeiro livro tem o título de “A Caixa de Kappa”. É, pelo visto eu adoro um livro com “caixa” no título. :)

Meu filho me cobra até hoje que eu não terminei essa história. Qualquer dia volto a ela, mexo em tudo que meu olhar de hoje vai ter vontade de mexer, e talvez tire da gaveta. O legal foi encontrar nesses cadernos todo o meu planejamento. Pesquisa de significado de nomes, ficha de cada personagem, etc.

No terceiro caderno, encontrei um conto que pelo visto deve ter sido escrito depois de um dia muito ruim. Eu desancava as coisas erradas dentro do serviço público, com requintes de irritação. Foi pro lixo, pra minha segurança. :)

Achei também as anotações de uma conferência que assisti da Profª Marisa Lajolo na ABL. Chamava-se “O Romance e a Construção do Imaginário Brasileiro” e aconteceu dia 03/04/2007.

Algumas anotações que fiz e deixo registrado aqui, antes de descartar o caderno:

- Construir um país através da sua literatura.

- Época de Machado de Assis – 1876 – 70% da população está em profunda ignorância.

- Censo 1890: 14 milhões; 8 milhões de homens e mulheres livres; 1 milhão sabia ler e escrever. Preocupação com esse público que não lê no início de Brás Cubas

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Outra palestra de 26/04/2007, falando sobre folhetins. Só não anotei quem participou.

- O mais antigo folhetim brasileiro data de 1830 e chama-se “Assassinos misteriosos”.

- Livro “Folhetim: uma história”

- Novela é o folhetim dos dias de hoje. Declaração de Agnaldo Silva para explicar seu processo de trabalho: “Antes de começar uma história, eu vou a minha biblioteca completa de Balzac e Dickens e retiro um livro aleatoriamente. Leio. Está tudo lá!”

 

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De palavra a palavra

Banco de Imagens Free (MS-Office)

Uma vez um amigo me perguntou: “De onde vem suas ideias?” “De vários lugares”, eu respondi. De uma caminhada, da leitura de um livro, de um filme, de uma notícia de jornal, ou do nada.

Considere esse nada não como o vazio, mas como a ausência de estímulo. E em seu lugar, uma busca no nosso banco de imagens, sons e sensações. Esse banco que se autoabastece, sem que tenhamos controle sobre ele.

Muitas histórias surgem pra mim desse jeito. Do nada. De um instante em que deixo a minha mente esvaziar, se encher desse nada tão repleto de significados. Como eu disse para minha terapeuta ontem: “Deixo minha mente entrar em alfa”.

E desse nada vem uma palavra, uma frase, um início, um fim. Basta isso. É como uma fagulha que pode se transformar apenas numa pequena fogueira ou num grande incêndio, ou literariamente falando, num exercício de criação ou numa obra-prima. Por várias vezes, uma palavra atraiu outra, que atraiu uma frase, um parágrafo, um capítulo; uma ideia puxou outra, desencadeou uma emoção, uma solução, e, quando percebi, um conto inteiro estava escrito.

É isso. Escrever unindo palavras. Cada palavra um significado. Quanto mais significado tem uma palavra, mais forte será a atração pela próxima. Quando vemos, tem-se nas mãos uma primeira versão. Depois, é trabalho, braçal, de repetição, lapidando, ajustando, até que todas as arestas sejam eliminadas, até que o texto se torne uma peça redonda, lisa e encantada.

Antes de começar esse post, tentei fazer esse exercício. Deixei minha mente nesse estado-alfa, nesse nada que busca tanto dentro de nós. Saiu o texto abaixo. Uma palavra puxou outra, sem que eu soubesse onde ia parar. Claro que é uma primeira versão, um rascunho. Na realidade, não é nada. É apenas um exercício. Mas resolvi dividir com vocês.

Ela se posicionou ao lado. Esperou os passageiros desembarcarem, outros embarcarem, mas quando chegou sua vez, quando estava de frente para o vão livre, pronta a prosseguir, sua perna parou a meio caminho. E retornou. Devagar. Quase ninguém percebeu sua hesitação. Quase. Pois eu percebi. 

A sirene tocou prenunciando o fechamento das portas. Ela aguardou as composições correrem à sua frente, deixando o vazio da espera na plataforma. Eu a vi recuar um passo, dois talvez, ato imperceptível parecendo evitar algum perigo.

Em passos curtos, ela se afastou. Estranhos cruzavam seu caminho, mas ela se mantinha no mesmo lugar. A saída cada vez mais próxima. De repente, senti que precisava lhe falar. Não queria saber o motivo de ela não ter ido. Precisava saber por que tinha ficado. Levantei-me e corri. A plataforma pareceu-me maior do que antes. Sua silhueta já sumia no topo da escada rolante, enquanto eu alcançava apenas o primeiro degrau.

Eu a vi saindo da estação. Como se pressentisse minha presença, ela se virou, e eu vi seu rosto. Como se fosse uma fotografia, ela se registrou pra sempre em minha mente. O rosto moreno, os cabelos pretos e curtos, e o olhar de Medusa que petrificou o batimento acelerado do meu coração.

Ela se perdeu no meio da multidão.

E quando voltei para meu lugar de origem, tinha perdido muito mais do que a próxima composição, tinha perdido a chance de conhecer minha primeira namorada.

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Em tempo, consegui revisar mais um caderno. Desse extraí uma resenha que copiei, a respeito do livro “A secretária de Borges”, de Lucia Bettencourt. Lucia, que se tornou uma amiga querida, é realmente uma escritora de grande talento. Sou apaixonada pelo texto dela. Recomendo para quem ainda não teve oportunidade de ler seu livro. Não vai se arrepender. E olha que não sou só eu que digo. Afinal, “A Secretária” foi o livro ganhador do Prêmio Sesc de Literatura de 2005, na categoria contos.

Sobre a resenha, de Marco Polo Guimarães, que está na orelha do livro, resolvi deixar registrado um trecho aqui:

“Este é um livro que tem imaginação, estilo e consistência.

Imaginação porque as tramas, quase sempre engenhosas – ainda que em diferentes níveis de complexidade -, se solucionam com desenvoltura.

Estilo porque a linguagem, rápida e direta, é bem tecida, sem frouxidões, revelando a busca pela palavra exata e pela expressão o mais funcional possível.

E consistência porque os personagens (por sinal, quase sempre mulheres) se impõem pela verossimilhança, com diálogos, pensamentos e sensações que se desenvolvem naturalmente.

Lúcia B. é uma escritora que sabe usar bem todos os recursos que mobiliza, inclusive detalhes aparentemente gratuitos, mas que, na verdade, servem para conferir uma particular credibilidade ao que é narrado.”

 

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Sobre cadernos e ideias

 

Crédito: Banco de Imagens (Free) MS-Office

Desde que decidi ser escritora, passei a comprar cadernos. De todos os tipos. De vários tamanhos. A4, 1/2 A4, 1/4 de A4, cadernetas, moleskines nacionais. Pela minha casa já passaram mais de 50 cadernos, sem conta de mentiroso. A maioria de capa dura. Não sei explicar o motivo dessa escolha, mas há algo de segurança nessas capas, de profissionalismo. Bem, pelo menos é a minha sensação.

Neles eu escrevi contos, armazenei ideias, rabisquei livros inteiros. Sim, muitos conhecem esse meu segredo, que não tem nada de segredo: eu escrevo à mão. Escrevo usando papel e caneta. Tenho uma paixão especial por ver minha letra – modéstia à parte, muito redondinha – caminhando pelas linhas, produzindo meus textos, dando vida à tanta imaginação.

Depois, eu passo para o computador. E imprimo. Pois revisão que se preze tem que ser no papel. Reviso, reviso, rabisco, rabisco, e quando já não dá mais para ler as mudanças, passo a limpo e imprimo novamente.

Há dois anos mais ou menos me vi sufocada com tantos cadernos. Minhas ideias, que não importava onde eu estivesse, eu corria e anotava nos blocos inseparáveis de bolsa, estavam espalhadas como se eu tivesse deixado uma resma no meio de um vendaval.

Então, decidi olhar todos os meus cadernos e passar a limpo o que estava escrito e perdido em cada um. Primeira decisão: inventar cadernos maiores. Um para técnicas literárias, outro para trechos de textos que eu comecei e não prossegui, e um terceiro para minhas ideias.

Talvez o caderno que mais tenha vingado tenha sido o das ideias. Claro que não consegui dar conta de passar tudo a limpo. Ainda tenho uma gaveta inteira entupida deles, mais uma caixa e uma prateleira da minha estante. Mas esse espaço especial, cheio de itens e anotações, não se prendeu ao passado. Prosseguiu crescendo, anotando novas ideias, rendendo frutos. De lá saíram contos meus que foram premiados, o meu romance e vários textos infantis que estão prontos na minha gaveta (nesse caso, a gaveta virtual).

No momento, esse meu caderno-tesouro tem 415 ideias anotadas. Certamente, muitas delas jamais se tornarão histórias. Outras já passaram por essa peneira e se tornaram luz. De vez em quando folheio o caderno e alguma ideia vence a corrida e me chama a atenção. Meu maior problema é a vontade de desenvolver várias delas ao mesmo tempo.

Uma das resoluções de 2012 é dar ordem nos meus papéis, originais (virtuais ou não), anotações, etc. Então, pensando em quando começaria a fazer isso, percebi que não é decidindo passar um dia ou uma semana inteira numa arrumação que vou conseguir arrumar tudo. Fazer dessa forma é algo utópico. É como querer emagrecer 5 quilos de uma vez. Se a meta for menor, de 500 gramas primeiro, será muito mais factível. Depois, é só renovar essa meta ou aumentá-la um pouquinho. Assim, o melhor a fazer é cada dia olhar um pouco desse material. E descartar o que não serve mais.

Então, hoje, fiz isso. Cheguei do trabalho e peguei um desses cadernos, o mais fininho de todos, um que eu mesma tinha feito. Sim, teve disso também.

Nele encontrei frases que eu havia anotado de alguns livros. Frases que achei diferente, que hoje já não me chamam tanta atenção. Isso é a vantagem do tempo, ele muda a percepção de tudo.

Reli e rasguei.

Seguindo, encontrei ali o planejamento do que deveria ter sido meu primeiro livro de contos. Chamaria “Amor em cubos de gelo” que era o título de um dos contos. Aliás, meu livro de contos que ainda é inédito já mudou de cara diversas vezes. Hoje se chama “Segunda pele”, reúne 11 contos, sendo 7 premiados. Por que ainda não o publiquei? Sinceramente, não sei dizer. Talvez medo. Talvez o velho medo de não achar que esteja bom o suficiente. Talvez seja apenas o desejo de estrear na ficção adulta com um romance.

Voltando ao primeiro planejamento, fiquei com saudade desse conto, o “Amor em cubos de gelo”. Era um conto mediano, mas eu gostava dele. Talvez eu o resgate na minha gaveta, dê uma lapidada com o olhar de hoje e publique aqui.

É bom quando terminamos um texto e ele nos fisga, nos conquista, nos torna fãs de carteirinha. É aí que está a diferença.

Foi o que aconteceu com o romance que terminei no final do ano. Infelizmente, não posso revelar o título, pois ele está concorrendo num concurso, mas em breve vou falar muito dele aqui. 

Assim também aconteceu com o Caixa de Desejos. Eu me apaixonei pelos personagens, pela história, pelo meu texto. Mas alguém há de perguntar: é possível finalizar um texto e não gostar dele? Se é! A diferença do sucesso começa no que o texto desperta no próprio autor. Se nós não formos conquistados por nossos textos, o que podemos esperar dos nossos leitores?

Nesse caderno, que já se foi, encontrei também algumas anotações de uma palestra que assisti da Ana Maria Machado, com a Beatriz Resende como moderadora. Acho que foi na ABL, onde eu ia com muita frequência.

Da palestra, anotei uma frase muito interessante. Antes de jogá-la fora, resolvi registrar aqui: “Há uma coloquialidade refinada nos últimos romances”. Acredito que ela falasse de seus próprios textos, mas a frase, assim, solta, pode significar muita coisa.

Havia também vários nomes de escritores: Paul Auster, Philip Roth, Ian McEwan. Numa seta ligada ao Roth, havia uma observação: “muito carregado de intertextualidade”. Teria que reler Roth para descobrir se isso é verdade.

No caderno tinha também um site: http://www.literatura.us que traz textos de escritores, principalmente, de língua espanhola.

E pra fechar descobri que foi o Marcelo Moutinho quem me falou do Mariel Reis e me indicou o “John Fante trabalha no Esquimó” (Calibán). Aliás, um bom livro.

Pois é, limpeza feita, anotações revisadas, resultado: menos um caderno na minha pilha. Mas se o caderno se foi, as lembranças aproveitaram uma porta aberta para vir se abancar.

E uma dessas lembranças foi uma ideia antiga que não estava ali escrita, mas vira e mexe vem me cutucar: a vontade de começar a escrever uma novela aqui no blog, dividindo com os leitores cada etapa, cada dificuldade, cada faz e refaz.

Se vou fazer isso? Não dá para saber. Do jeito que sou doida, quem sabe da noite para o dia decido e chego aqui com essa novidade.

Mas isso vamos deixar para um próximo post, pois hoje já falei demais.

Beijocas literárias para todos! :)

 

 

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Livros que pretendo ler em 2012

Pois é, início de ano atrai planejamento. Na vida pessoal, tenho algumas mudanças nada fáceis pela frente. Na vida literária, a lista é gigantesca. Entre meus planos, posso citar:

  • Terminar meu livro juvenil – A Turma do CP500;
  • Acompanhar a produção da peça de teatro que será feita com meu livro “Caixa de Desejos”;
  • Trabalhar o roteiro da peça de teatro que será feita com meu livro inédito da bruxinha que queria ser fada;
  • Batalhar uma editora para meu romance adulto;
  • Começar a escrever o próximo romance adulto;
  • Conseguir manter em dia todas as edições do jornal Sobrecapa Literal (http://www.sobrecapaliteral.com.br);
  • Participar dos principais concursos literários (acreditem, eu perco prazo por falta de tempo);
  • Ler os livros que estão me encarando na estante…

Dos itens acima, o último, que fala das leituras programadas é bem especial. Alguns títulos já estão aqui em casa, só precisam se ajeitar na fila dos livros que serão lidos. Um disputando com o outro a preferência do meu tempo tão curtinho, mas tão prazeroso. Um tempo para me embriagar com literatura. Outros títulos ainda estão na livraria, lá pelas prateleiras esquecidas, mas já constam numa lista nobre, a fila do “a comprar” ou “do ganhar de presente de aniversário, de dia das mães, etc”.

E como sou leitora compulsiva, acabo visitando no final do ano as listas de melhores livros que foram escritas por alguns colegas, aumentando minha dose de culpa. ;)

Confiram alguns links que citei e montem suas próprias listas das leituras de 2012:

I) Lista ”Os melhores livros de 2011″, publicada no Jornal O Globo e escolhida por Mànya Millen, José Castello e Guilherme de Freitas.

II) Lista “Livros do ano? Me vê meia dúzia”, publicada pelo Sérgio Rodrigues, no seu blog Todoprosa.

III) Lista “50 melhores livros” infantis escolhidos pelo Estadinho.

IV) Lista ”Os melhores livros que eu li em 2011″, publicada pela escritora Ivana Arruda Leite, em seu blog Doidivana.

Dessas listas eu já li O Senhor do Lado Esquerdo e é realmente um romance muito bom, e Amor sem fim, que, inclusive, entrou na minha lista dos melhores livros de 2011.

Na minha lista do “a comprar” já constavam:

  • Diário da Queda, de Michel Laub
  • A máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe
  • Desonra, de Coetzee (adoro os textos dele)
  • Nêmesis, de Philip Roth (gosto muito dos textos do Roth, aliás um de seus romances entrou na minha lista)
  • Habitante irreal, de Paulo Scott

Na minha fila do “comprado e pronto para escolher em que ordem será lido” estão:

  • Como funciona a ficção, de James Wood
  • Liberdade, de Jonathan Franzen

Filas organizadas, é só colocar ordem na casa literária. Lembrando que Claraboia, de Saramago abriu a fila de leitura de 2012. Estou no início, mas gostando muito do livro. Divido com vocês uma frase da página 11: “A voz de Mariana era tão gorda como a sua dona. E era tão franca e bondosa como os olhos dela”.

Agora, me resta olhar também na minha estante alguns títulos comprados em 2010 e 2011 para saber quem será o próximo após Claraboia. São tantos, mas alguns que me chamam com mais frequência:

  • Clarice na Cabeceira – romances, org. de José Castello
  • A palavra ausente, de Marcelo Moutinho
  • Mururu no Amazonas, de Flávia Lins e Silva
  • Os Malaquias, de Andréa Del Fuego
  • Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa
  • A louca da casa, de Rosa Montero
  • Domingos sem Deus, de Luiz Ruffato
  • A Ilha, de Flávio Carneiro
  • Luzia, de Susana Fuentes
  • A trégua, de Mario Benedetti
  • Conexão Magia, de Helena Gomes e Rosana Rios
  • O Adolescente, de Dostoiévski
  • Tia Julia e o escrevinhador, de Mario Vargas Llosa

Ainda bem que 2012 tem um dia a mais. :) Assim, talvez, eu consiga dar conta de tudo. Vamos ver quem vence essa corrida para vir parar no meu colo. Sabendo que os infantojuvenis têm prioridade de leitura e sempre passam a frente. ;)

Boa leitura pra vocês também!

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