Sobre cadernos e ideias

 

Crédito: Banco de Imagens (Free) MS-Office

Desde que decidi ser escritora, passei a comprar cadernos. De todos os tipos. De vários tamanhos. A4, 1/2 A4, 1/4 de A4, cadernetas, moleskines nacionais. Pela minha casa já passaram mais de 50 cadernos, sem conta de mentiroso. A maioria de capa dura. Não sei explicar o motivo dessa escolha, mas há algo de segurança nessas capas, de profissionalismo. Bem, pelo menos é a minha sensação.

Neles eu escrevi contos, armazenei ideias, rabisquei livros inteiros. Sim, muitos conhecem esse meu segredo, que não tem nada de segredo: eu escrevo à mão. Escrevo usando papel e caneta. Tenho uma paixão especial por ver minha letra – modéstia à parte, muito redondinha – caminhando pelas linhas, produzindo meus textos, dando vida à tanta imaginação.

Depois, eu passo para o computador. E imprimo. Pois revisão que se preze tem que ser no papel. Reviso, reviso, rabisco, rabisco, e quando já não dá mais para ler as mudanças, passo a limpo e imprimo novamente.

Há dois anos mais ou menos me vi sufocada com tantos cadernos. Minhas ideias, que não importava onde eu estivesse, eu corria e anotava nos blocos inseparáveis de bolsa, estavam espalhadas como se eu tivesse deixado uma resma no meio de um vendaval.

Então, decidi olhar todos os meus cadernos e passar a limpo o que estava escrito e perdido em cada um. Primeira decisão: inventar cadernos maiores. Um para técnicas literárias, outro para trechos de textos que eu comecei e não prossegui, e um terceiro para minhas ideias.

Talvez o caderno que mais tenha vingado tenha sido o das ideias. Claro que não consegui dar conta de passar tudo a limpo. Ainda tenho uma gaveta inteira entupida deles, mais uma caixa e uma prateleira da minha estante. Mas esse espaço especial, cheio de itens e anotações, não se prendeu ao passado. Prosseguiu crescendo, anotando novas ideias, rendendo frutos. De lá saíram contos meus que foram premiados, o meu romance e vários textos infantis que estão prontos na minha gaveta (nesse caso, a gaveta virtual).

No momento, esse meu caderno-tesouro tem 415 ideias anotadas. Certamente, muitas delas jamais se tornarão histórias. Outras já passaram por essa peneira e se tornaram luz. De vez em quando folheio o caderno e alguma ideia vence a corrida e me chama a atenção. Meu maior problema é a vontade de desenvolver várias delas ao mesmo tempo.

Uma das resoluções de 2012 é dar ordem nos meus papéis, originais (virtuais ou não), anotações, etc. Então, pensando em quando começaria a fazer isso, percebi que não é decidindo passar um dia ou uma semana inteira numa arrumação que vou conseguir arrumar tudo. Fazer dessa forma é algo utópico. É como querer emagrecer 5 quilos de uma vez. Se a meta for menor, de 500 gramas primeiro, será muito mais factível. Depois, é só renovar essa meta ou aumentá-la um pouquinho. Assim, o melhor a fazer é cada dia olhar um pouco desse material. E descartar o que não serve mais.

Então, hoje, fiz isso. Cheguei do trabalho e peguei um desses cadernos, o mais fininho de todos, um que eu mesma tinha feito. Sim, teve disso também.

Nele encontrei frases que eu havia anotado de alguns livros. Frases que achei diferente, que hoje já não me chamam tanta atenção. Isso é a vantagem do tempo, ele muda a percepção de tudo.

Reli e rasguei.

Seguindo, encontrei ali o planejamento do que deveria ter sido meu primeiro livro de contos. Chamaria “Amor em cubos de gelo” que era o título de um dos contos. Aliás, meu livro de contos que ainda é inédito já mudou de cara diversas vezes. Hoje se chama “Segunda pele”, reúne 11 contos, sendo 7 premiados. Por que ainda não o publiquei? Sinceramente, não sei dizer. Talvez medo. Talvez o velho medo de não achar que esteja bom o suficiente. Talvez seja apenas o desejo de estrear na ficção adulta com um romance.

Voltando ao primeiro planejamento, fiquei com saudade desse conto, o “Amor em cubos de gelo”. Era um conto mediano, mas eu gostava dele. Talvez eu o resgate na minha gaveta, dê uma lapidada com o olhar de hoje e publique aqui.

É bom quando terminamos um texto e ele nos fisga, nos conquista, nos torna fãs de carteirinha. É aí que está a diferença.

Foi o que aconteceu com o romance que terminei no final do ano. Infelizmente, não posso revelar o título, pois ele está concorrendo num concurso, mas em breve vou falar muito dele aqui. 

Assim também aconteceu com o Caixa de Desejos. Eu me apaixonei pelos personagens, pela história, pelo meu texto. Mas alguém há de perguntar: é possível finalizar um texto e não gostar dele? Se é! A diferença do sucesso começa no que o texto desperta no próprio autor. Se nós não formos conquistados por nossos textos, o que podemos esperar dos nossos leitores?

Nesse caderno, que já se foi, encontrei também algumas anotações de uma palestra que assisti da Ana Maria Machado, com a Beatriz Resende como moderadora. Acho que foi na ABL, onde eu ia com muita frequência.

Da palestra, anotei uma frase muito interessante. Antes de jogá-la fora, resolvi registrar aqui: “Há uma coloquialidade refinada nos últimos romances”. Acredito que ela falasse de seus próprios textos, mas a frase, assim, solta, pode significar muita coisa.

Havia também vários nomes de escritores: Paul Auster, Philip Roth, Ian McEwan. Numa seta ligada ao Roth, havia uma observação: “muito carregado de intertextualidade”. Teria que reler Roth para descobrir se isso é verdade.

No caderno tinha também um site: http://www.literatura.us que traz textos de escritores, principalmente, de língua espanhola.

E pra fechar descobri que foi o Marcelo Moutinho quem me falou do Mariel Reis e me indicou o “John Fante trabalha no Esquimó” (Calibán). Aliás, um bom livro.

Pois é, limpeza feita, anotações revisadas, resultado: menos um caderno na minha pilha. Mas se o caderno se foi, as lembranças aproveitaram uma porta aberta para vir se abancar.

E uma dessas lembranças foi uma ideia antiga que não estava ali escrita, mas vira e mexe vem me cutucar: a vontade de começar a escrever uma novela aqui no blog, dividindo com os leitores cada etapa, cada dificuldade, cada faz e refaz.

Se vou fazer isso? Não dá para saber. Do jeito que sou doida, quem sabe da noite para o dia decido e chego aqui com essa novidade.

Mas isso vamos deixar para um próximo post, pois hoje já falei demais.

Beijocas literárias para todos! 🙂

 

 

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Um pensamento sobre “Sobre cadernos e ideias

  1. Dag Bandeira disse:
    Comecei a escrever textos técnicos e artigos universitários usando o word, em 1993. Quando comecei na literatura, em 1999, ficava pensando em Machado de Assis, escrevendo com a pena, sendo molhada na tinta. Achava algo surreal. Depois de ler o artigo de Ana Cristina Melo, me deu até vontade de criar um novo vocábulo: é realmente contemporaneorreal. Adorei o artigo, pois ele nos mostra a importância de guardarmos nossos textos por uns tempos e depois, mais distanciadas e amadurecidas, aprimorarmos nossa visão crítica sobre o que escrevemos. Leitura deliciosa.

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