De palavra a palavra

Banco de Imagens Free (MS-Office)

Uma vez um amigo me perguntou: “De onde vem suas ideias?” “De vários lugares”, eu respondi. De uma caminhada, da leitura de um livro, de um filme, de uma notícia de jornal, ou do nada.

Considere esse nada não como o vazio, mas como a ausência de estímulo. E em seu lugar, uma busca no nosso banco de imagens, sons e sensações. Esse banco que se autoabastece, sem que tenhamos controle sobre ele.

Muitas histórias surgem pra mim desse jeito. Do nada. De um instante em que deixo a minha mente esvaziar, se encher desse nada tão repleto de significados. Como eu disse para minha terapeuta ontem: “Deixo minha mente entrar em alfa”.

E desse nada vem uma palavra, uma frase, um início, um fim. Basta isso. É como uma fagulha que pode se transformar apenas numa pequena fogueira ou num grande incêndio, ou literariamente falando, num exercício de criação ou numa obra-prima. Por várias vezes, uma palavra atraiu outra, que atraiu uma frase, um parágrafo, um capítulo; uma ideia puxou outra, desencadeou uma emoção, uma solução, e, quando percebi, um conto inteiro estava escrito.

É isso. Escrever unindo palavras. Cada palavra um significado. Quanto mais significado tem uma palavra, mais forte será a atração pela próxima. Quando vemos, tem-se nas mãos uma primeira versão. Depois, é trabalho, braçal, de repetição, lapidando, ajustando, até que todas as arestas sejam eliminadas, até que o texto se torne uma peça redonda, lisa e encantada.

Antes de começar esse post, tentei fazer esse exercício. Deixei minha mente nesse estado-alfa, nesse nada que busca tanto dentro de nós. Saiu o texto abaixo. Uma palavra puxou outra, sem que eu soubesse onde ia parar. Claro que é uma primeira versão, um rascunho. Na realidade, não é nada. É apenas um exercício. Mas resolvi dividir com vocês.

Ela se posicionou ao lado. Esperou os passageiros desembarcarem, outros embarcarem, mas quando chegou sua vez, quando estava de frente para o vão livre, pronta a prosseguir, sua perna parou a meio caminho. E retornou. Devagar. Quase ninguém percebeu sua hesitação. Quase. Pois eu percebi. 

A sirene tocou prenunciando o fechamento das portas. Ela aguardou as composições correrem à sua frente, deixando o vazio da espera na plataforma. Eu a vi recuar um passo, dois talvez, ato imperceptível parecendo evitar algum perigo.

Em passos curtos, ela se afastou. Estranhos cruzavam seu caminho, mas ela se mantinha no mesmo lugar. A saída cada vez mais próxima. De repente, senti que precisava lhe falar. Não queria saber o motivo de ela não ter ido. Precisava saber por que tinha ficado. Levantei-me e corri. A plataforma pareceu-me maior do que antes. Sua silhueta já sumia no topo da escada rolante, enquanto eu alcançava apenas o primeiro degrau.

Eu a vi saindo da estação. Como se pressentisse minha presença, ela se virou, e eu vi seu rosto. Como se fosse uma fotografia, ela se registrou pra sempre em minha mente. O rosto moreno, os cabelos pretos e curtos, e o olhar de Medusa que petrificou o batimento acelerado do meu coração.

Ela se perdeu no meio da multidão.

E quando voltei para meu lugar de origem, tinha perdido muito mais do que a próxima composição, tinha perdido a chance de conhecer minha primeira namorada.

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Em tempo, consegui revisar mais um caderno. Desse extraí uma resenha que copiei, a respeito do livro “A secretária de Borges”, de Lucia Bettencourt. Lucia, que se tornou uma amiga querida, é realmente uma escritora de grande talento. Sou apaixonada pelo texto dela. Recomendo para quem ainda não teve oportunidade de ler seu livro. Não vai se arrepender. E olha que não sou só eu que digo. Afinal, “A Secretária” foi o livro ganhador do Prêmio Sesc de Literatura de 2005, na categoria contos.

Sobre a resenha, de Marco Polo Guimarães, que está na orelha do livro, resolvi deixar registrado um trecho aqui:

“Este é um livro que tem imaginação, estilo e consistência.

Imaginação porque as tramas, quase sempre engenhosas – ainda que em diferentes níveis de complexidade -, se solucionam com desenvoltura.

Estilo porque a linguagem, rápida e direta, é bem tecida, sem frouxidões, revelando a busca pela palavra exata e pela expressão o mais funcional possível.

E consistência porque os personagens (por sinal, quase sempre mulheres) se impõem pela verossimilhança, com diálogos, pensamentos e sensações que se desenvolvem naturalmente.

Lúcia B. é uma escritora que sabe usar bem todos os recursos que mobiliza, inclusive detalhes aparentemente gratuitos, mas que, na verdade, servem para conferir uma particular credibilidade ao que é narrado.”

 

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