O direito de abandonar

Banco de Imagens Free (MS-Office)

Tempo. Tempo livre. Quisera eu ter o tempo ao meu dispor. Colocar minha cadeira de couro, tão confortável, de frente para o quintal, escrever durante algumas horas, parar, folhear um romance, me embriagar de palavras repletas de vida e ficção e depois voltar ao meu próprio texto.

Isso não existe pra mim. Minha rotina começa às 5h30. Saio às 7h para levar as crianças até a escola, depois sigo para o trabalho, para chegar às 8h se o trânsito estiver de boa vontade comigo. Bato o ponto de saída às 16h, vou me encontrar com o maridão, para voltarmos juntos, esperando chegar em casa entre 17h30 e 18h30. Em casa, tempo para os filhos, para um jantar rápido, e depois o tempo zapeando as redes sociais e a caixa de e-mails até a hora que eu desmaio de sono sobre o teclado.

Em que horário eu escrevo? Simples.

– No trajeto de casa para o trabalho e/ou
– Nos 45 minutos roubados do meu almoço que é praticamente engolido e/ou
– No trajeto do trabalho para casa e/ou
– Em algumas horas no final de semana antes dos meus filhos acordarem.

– Exceção: Num final de semana inteiro quando tenho algum projeto para entregar.

E o tempo para ler? Simples também.

Eu encaixo no trajeto de casa até os locais de lazer (nos passeios em família), no trajeto do trabalho para casa (quando estou cansada para revisar meus textos), nas filas ou espera do metrô, ou, raramente, em algum momento que paro e me dou meia hora sentada no sofá de casa, para só e somente só ler. (E pensar que na época de solteira eu costumava ler um dia inteiro, sem conseguir parar antes de chegar ao ponto final)

Por esse motivo, ultimamente ando malvada. E malvada significa: abandonar leituras que não estão me agradando.

Não tenho mais tempo a perder. Estou com 3.9 na quilometragem da vida. Cheia de textos na gaveta para serem revisados, cheia de planos de novos textos para serem criados, com dois filhos lindos para criar… E uma aposentadoria que só vem daqui a 15 anos. É, definitivamente, não dá para perder horas preciosas com textos sufocantes.

Aprendi na prática que só tem um tipo de texto que merece segunda chance: os clássicos.

Sim, pois se abandonamos um texto clássico pode ser que o problema seja temporal. No caso, nosso. Ainda não estamos prontos para ele. Mas também é verdade que talvez nunca estejamos. E isso é um fato. Não somos obrigados a gostar de todos os clássicos. Temos o direito de simplesmente dizer: “não me agradou”.

Mas enquanto não chegamos a esse veredicto na relação texto-leitor é preciso conceder novas chances. Não aos clássicos, mas a nós mesmos, para continuarmos tentando.

Eu vivi isso. Lembro que a primeira vez que peguei Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis (escritor que é um dos meus preferidos), eu fiquei com cara de paisagem. Mais que isso, fiquei com cara de “what loucura is that?” (Assim mesmo, misturando inglês e português, pois tive que substituir uma das palavras, já  que não ficaria bem eu colocar aqui.)

Não deu. E olha que já tinha lido todos os romances da primeira fase dele, tinha lido Dom Casmurro e ficado fascinada. Mas não rolou com o Brás Cubas. Deixei de lado. Tudo bem, podia ser que um ou outro livro dele eu não curtisse. Mas aquilo me deixou encafifada. Se eu gostei de todos os romances, de todos os contos, por que esse livro não descia?

E não me lembro quanto tempo depois eu voltei a ele. Comecei a reler e tudo já tomou outra forma, ali mesmo na introdução, na carta de Brás Cubas ao Leitor. Peraí, nessa segunda leitura, eu já sabia quem era Stendhal, Sterne ou Xavier de Maistre. Uau! O novo primeiro contato tinha melhorado. E daí não mais parou. Cada capítulo, frases e frases marcadas, que me sacudiam, me diziam muito, me ensinavam, me desensinavam. Sim, também temos que “desaprender” com os livros. Saber demais atrapalha a escrita. Cada capítulo avançado e eu dizia: “Uau, ele é o máximo!”. Quanta intertextualidade! Quanto domínio! E pronto. Nada mais havia de estranho no meu amor por Machado de Assis.

Então, a Machado concedo essa distinção. A outros autores clássicos também. Mas aos contemporâneos não perdoo mais. Sou até benevolente. Dou-lhe um terço do livro para me conquistar. Mas se não conseguir, que se vá para minha estante, até o dia em que eu aprenda o desapego literário e resolva doá-lo.

Estou com dois livros assim. Num deles tive que aturar uma frase “Até agora, estava tudo um tédio”. Se fosse apenas falhas no texto ou na edição, eu perdoava. Mas a história estava arrastada, cansativa. Chata! No outro, a crueldade gratuita me embrulhou tanto o estômago que larguei.

Mas há outros tipos de abandono que me permito. No caso, o abandono parcial. Explico. Descarto descrições enfadonhas, teorias que não me interessam ou trechos arrastados. Nessas partes, eu cruzo a página com meu olhar, que capta um grupo de palavras em cada parágrafo, suficiente para eu descobrir se o parágrafo é relevante para a história. Se não for, vamos ao próximo.

Terminei um romance há pouco que precisava chegar até o fim. Não vou dizer o motivo, porque entregaria o jogo. E se há algo que determinei pra mim é: se puder falar bem, vou espalhar aos sete ventos. Se não gostar, divido apenas com meu travesseiro ou uma amiga muito próxima. 🙂

Pois bem, adorei a primeira parte do romance. Um texto ágil, viciante. Mas ao chegar na segunda parte, ele se tornou maçante, repetitivo, sem sal. Eu contava as páginas para chegar à última página. O pior aqui foi que esperava ser surpreendida no final e não fui. Saco de literatura contemporânea que esquece de dar fim aos textos! Ter terminado com a sensação de que o romance teria sido bem mais proveitoso se encerrasse na primeira parte foi meio frustrante.

Voltando às boas descobertas, divido com vocês uma frase que acho fantástica do romance de Machado de Assis:

“… Marcela amou-me durante quinze meses e 11 contos de réis; nada menos.”

Nada menos que perfeito!

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Balanço da minha limpeza: mais três cadernos revisados. Dois deles tem o final do primeiro volume e o início do segundo volume de uma história juvenil de fantasia que criei há cinco anos. Chama-se “Trilogia de Alpha”. E o primeiro livro tem o título de “A Caixa de Kappa”. É, pelo visto eu adoro um livro com “caixa” no título. 🙂

Meu filho me cobra até hoje que eu não terminei essa história. Qualquer dia volto a ela, mexo em tudo que meu olhar de hoje vai ter vontade de mexer, e talvez tire da gaveta. O legal foi encontrar nesses cadernos todo o meu planejamento. Pesquisa de significado de nomes, ficha de cada personagem, etc.

No terceiro caderno, encontrei um conto que pelo visto deve ter sido escrito depois de um dia muito ruim. Eu desancava as coisas erradas dentro do serviço público, com requintes de irritação. Foi pro lixo, pra minha segurança. 🙂

Achei também as anotações de uma conferência que assisti da Profª Marisa Lajolo na ABL. Chamava-se “O Romance e a Construção do Imaginário Brasileiro” e aconteceu dia 03/04/2007.

Algumas anotações que fiz e deixo registrado aqui, antes de descartar o caderno:

– Construir um país através da sua literatura.

– Época de Machado de Assis – 1876 – 70% da população está em profunda ignorância.

– Censo 1890: 14 milhões; 8 milhões de homens e mulheres livres; 1 milhão sabia ler e escrever. Preocupação com esse público que não lê no início de Brás Cubas

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Outra palestra de 26/04/2007, falando sobre folhetins. Só não anotei quem participou.

– O mais antigo folhetim brasileiro data de 1830 e chama-se “Assassinos misteriosos”.

– Livro “Folhetim: uma história”

– Novela é o folhetim dos dias de hoje. Declaração de Agnaldo Silva para explicar seu processo de trabalho: “Antes de começar uma história, eu vou a minha biblioteca completa de Balzac e Dickens e retiro um livro aleatoriamente. Leio. Está tudo lá!”

 

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Um pensamento sobre “O direito de abandonar

  1. Quem não consegue abandonar um livro ruim pode ser comparado à pessoa que é casada e não consegue abandonar o cônjuge só para dar satisfação à sociedade. Dos maus autores, livrai-me Senhor.

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