Batendo as perninhas para sair do lugar

Ontem aconteceu minha primeira aula de natação. Não, eu não sabia nadar. Como não sabia que podia realizar várias coisas na minha vida. Mentira, saber, eu sabia. Sempre soube. De forma inconsciente, mas soube. Nunca fui daquelas de sentar e chorar por não ter algo. Mentira também; chorar, já chorei bastante, mas desde menina a palavra “não” sempre teve um peso diferente. Um peso de ficar do lado de lá da balança, para eu saber que precisava fazer algo do lado de cá, do lado do “sim”, do positivo, para buscar as vitórias que viriam como o peso bom para balancear minha vida.

Ontem, quando o professor me deu um macarrão para colocar debaixo do braço e mandou eu atravessar a piscina, batendo os pés, me vi no início de tantas conquistas da minha vida. Havia alguns momentos em que eu batia os pés, mas não saía do lugar. E quando ele pediu para eu bater os pés e, ao mesmo tempo, mergulhar a cabeça e soltar o ar pelo nariz, pensei: “Isso não vai dar certo”!

Pode parecer idiotice, mas rola um problema de sincronismo. Meu filho diz que sou atrapalhada. Muita gente diz que sou enrolada. E eu concordo. Naquela situação: ou bem eu respirava debaixo d’água, ou bem eu batia os pés (risos). Tá, agora falando sério. Eram duas coisas novas. O meu grande problema é querer raciocinar sobre tudo que faço. Daí eu querer raciocinar o sincronismo entre as duas atividades. Lógico que isso não podia dar certo. Na nossa vida, temos que deixar uma parte acontecer como reação aos estímulos, senão a máquina não sai do lugar.

Ouvi uma história, há alguns dias, que achei muito interessante e que ilustra o que estou falando:

A lagarta morria de inveja ao ver a centopeia andar com tanta desenvoltura. Então, resolveu perguntar pra ela:

– Centopeia, como você consegue andar tão bem tendo tantas perninhas?

– É fácil, eu mexo primeiro as quarenta patinhas do lado direito e, em seguida, eu mexo as quarentas patinhas do lado esquerdo, e assim vou fazendo de forma repetitiva.

– Ah, então, me mostra na prática como é.

A partir desse dia, a centopeia nunca mais conseguiu andar.

Então, era isso que estava acontecendo no exercício. E é isso que ainda vai acontecer por algumas aulas, até que eu descubra que não tenho que pensar na minha respiração ou nas minhas pernas. Que preciso apenas fazer.

Nesse primeiro exercício, nas idas e voltas que dei, raciocinei em vez de deixar acontecer, e isso me fez errar várias vezes. Mas a parte importante: não desisti. E quando as pernas esqueciam de bater, ou quando eu esquecia de soltar o ar pelo nariz, eu pensava: “Ei, Cristina, você consegue!”

Consigo, como consegui muito em minha vida. Como marquei um vêzinho nos itens que desejei pra mim e conquistei.

Foi assim quando tirei carteira há dezessete anos, e tive que reaprender a dirigir há cinco anos, pois nunca peguei num carro nesse intervalo. Lembro que depois de fazer novamente autoescola, quando me vi sozinha com o carro, me parecia impossível soltar a embreagem no ponto certo, para tirá-lo do lugar. Quase sempre o carro cabritava e morria. Por isso, naquele início inventei uma forma de me defender: evitava parar o carro, com medo de ter que fazê-lo se mover novamente. Vocês podem imaginar as confusões em que eu me metia! Mas eu consegui. E hoje, modéstia à parte, dirijo muito bem. 🙂

Foi assim também quando fui fazer dança de salão. Lembro que parecia impossível prestar atenção na música e, ao mesmo tempo, executar os passos. Ou prestar atenção na condução do meu parceiro e dar minha resposta com os pés. Mas o que parecia impossível aconteceu. Eu ganhei confiança em mim, eu parei de raciocinar a respeito, e deixei meu corpo adquirir o conhecimento. Quando o estalo aconteceu, passei rapidamente da turma básica para a avançada, a tal ponto que conseguia dançar de olhos fechados, respondendo apenas à condução do cavalheiro.

Foi assim também quando resolvi ser escritora. Nesse ponto, o único problema de sincronismo que enfrentei foi escrever e continuar trabalhando como analista de sistemas. Isso sem contar o tempo dedicado à minha família. Não era fácil, mas eu também consegui: não só arranjar tempo para escrever, para viver plenamente dessa minha paixão, como aprender, texto a texto, o que eu podia fazer melhor. Aprender o que eu devia deixar pra trás, como se fosse uma embreagem solta no lugar errado, ou o pé trocado no passo de bolero. Nunca escrevi pensando se o que estava colocando no papel estava errado ou certo. Isso me facilitou desde o início, permitiu que eu escrevesse sem amarras. O que tive que aprender foi, a cada releitura, eliminar cada vez mais erros.

E talvez essa seja a ideia da maturidade: aprendermos cada vez mais a eliminar o que é ruim na nossa vida, o que nos impede de melhorar.

Batemos as pernas quando decidimos fazer algo, e, às vezes, parece que esse algo está muito distante, ou que estamos dando dois passos pra frente e um pra trás. Parece que batemos as pernas e, em muitas vezes, não saímos do lugar. Mas é só questão de lembrar que é preciso deixar acontecer. É preciso não desistir, deixar que aquilo faça parte do nosso sangue, da nossa vida, que se torne, na repetição de cada exercício, na tentativa de não desistir, uma verdade… até o dia em que se torna uma conquista.

Ontem, quando batia as pernas e não saía do lugar, eu pensava: “Cristina, não desista”. É apenas o primeiro passo.

Então, para todos que criaram planos para 2012, eu digo, de coração: continuem batendo as pernas, até chegar o momento em que vocês vão se esquecer que estão fazendo isso. Nessa hora vocês terão saído do lugar!

Beijinhos literários e boa semana!

(A minha semana maravilhosa começou hoje… Uhu! Estou de férias!)

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6 pensamentos sobre “Batendo as perninhas para sair do lugar

  1. Parabéns Ana por essa nova empreitada. Em algum tempo você não só vai fazer tudo no automático como vai usar o tempo em que estiver nadando para pensar na vida ou quem sabe em um novo conto. Nadar é uma coisa muito relaxante . Flutuar na agua é muito bom.
    Divirta-se !

    Garavaldi

  2. Querida, além de me deliciar lendo seus textos, fico também perplexa com tamanha produtividade. Para dar a você um pequeno conforto, hoje em dia, escrevo muito enquanto estou nadando. O problema é lembrar do que escrevi, mentalmente, quando me sento diante dessa máquina faustiana.

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