Falando do meu processo criativo – repetições

Crédito: Banco de imagens free (Ms Office)

Qualquer escritor sabe o quanto de verdade existe  no ditado: “Escrever é 1% inspiração e 99% transpiração”. Acredito que esse percentual seja exagerado, mas, por experiência própria, coloco pelo menos 75% na conta do trabalho pesado.

Escrever precisa começar com um flash, uma inspiração, algo que nos abre as portas do mundo imaginário, que nos permite subir uma escada íngreme e espiar esse mundo paralelo, convidando personagens a fazer parte do nosso livro. Esse é o momento do frenesi, da visita ao mundo que todo escritor tem crachá especial para acessar, para captar as histórias, esse outro mundo que pode ser o sótão onde mora a nossa louca imaginação, como diz Rosa Montero em seu livro A louca da casa.

Mas depois que voltamos para nossa cadeira (de preferência, confortável), depois que essa primeira etapa se conclui, o resto é transpiração, trabalho, percepção, recorte. Sim, muito mais apagar do que escrever. De saber desistir, às vezes, de parágrafos inteiros, ou de um capítulo inteiro. Ou de um romance inteiro, como eu já fiz. Sim, já desisti de três romances durante os últimos anos. Mas isso é assunto para outro post. O que importa é que essa é a parte mais difícil, a do desapego, de saber que a primeira versão é um rascunho, tem o âmago do livro definitivo, mas não é o livro definitivo.

É nessa etapa que nossa carreira se desenvolve. Colocar uma história no papel, mesmo que seja um primeiro rascunho ruim, não é para qualquer um. Mas lapidá-lo como se tivéssemos uma pedra bruta nas mãos, isso é o que define um artista. Traduzir o bruto em peça rara, criar um diamante a partir de uma pedrinha de carbono. Essa etapa pede uma percepção aguçada para captar as falhas, lapidar as arestas. E não se lapida apenas o enredo, o traço dos personagens, se lapida a linguagem, a narrativa. Essa percepção está muito relacionada à maturidade de um escritor, pois quanto mais seguro ele está, mais ele detecta as imperfeições, percebe o que pode melhorar, no que derrapou, no que pode ser dito de forma inédita, numa representação que passe longe do clichê.

Nessa fase, buscamos muita coisa, como disse acima. Buscamos também a correção gramatical, as terríveis repetições, os nossos vícios de escrita.

Sim, pois precisamos de uma leitura crítica em que se perceba, no conjunto, aquela palavra ou expressão que parece voltar sempre, em momentos diferentes, no nosso texto. E se não for algo proposital, se não for o âmago do nosso texto (por exemplo, no meu romance há uma palavra chave que é pressentimento), ela deve ser reduzida. Acredite, amigo, ela representa um vício.

E para curar esse vício, uso algumas ferramentas, como o bom “Localizar e Substituir” do Word.

Você nunca usou? Experimente, então.

Vamos supor que você percebe em sua 10ª leitura que está repetindo demais a palavra porta em seu texto. Parece que todas as portas do mundo foram parar no seu romance. Você pode ir no Word, no item de menu Substituir, pedir para pesquisar “porta” e mandar substituir por “porta” com uma formatação especial de realce. Veja exemplo na imagem acima, no qual procuro a expressão “ela”.

Do jeito como está, o Word vai achar “ela” até mesmo no nome “janela”. É interessante para descobrir aliterações internas. Para definir o formato especial de realce, basta clicar na caixa “Substituir por” e clicar no botão “Formatar”, selecionando a opção Realce. Mas repare que você precisa selecionar a cor do realce, no botão semelhante ao que aponto com a seta, que fica na barra de ferramentas, fora da caixa de diálogo. Se não selecionar a cor, ele vai trocar a palavra por ela mesma, sem cor nenhuma.

Com isso, todas as palavras portas serão realçadas com a cor pré-definida de realce, que é como se fosse uma espécie de caneta marca-texto. Depois é só avançar as páginas do seu texto, e perceber a frequência e a proximidade da sua palavra alvo.

Agora, uma dica: antes de uma operação dessas, sempre salve seu texto, ou salve uma versão anterior, pois se você tiver cometido uma falha no comando substituir, não correrá o risco de perder o texto. Exemplo de falha: mandar substituir porta por potra. Acredite, isso acontece.

Dica 2: se quiser voltar uma operação de substituir, basta ir na opção “Desfazer” ou o famoso <Ctrl><Z>.

Dica 3: para voltar o texto à posição normal, sem nenhuma palavra realçada, basta marcar todo texto e clicar no botão de realce, selecionando a opção “Nenhum”, que fica acima das cores.

Dica 4: Experimente essas operações num texto de exemplo, antes de usar no seu texto de ficção.

Dica 5: Só se preocupe em buscar essas palavras quando considerar seu texto fechado. Cuidar disso durante a criação é caminhar três passos pra frente e dois pra trás. Não há mal em lapidar repetições durante o processo de escrita, mas só se for algo que você perceba durante sua leitura.

Estou, atualmente, nesse trabalho árduo de lapidação. Há palavras que pesquiso normalmente como: ele, ela, mas. Todavia, em cada texto, percebo também meus vícios e vou atrás deles. E, nessa busca, melhoramos muito a narrativa. Mas esse tipo de busca só é interessante de fazer quando o texto está fechado.

Certamente chegará um dia que meus olhinhos vão fazer, automaticamente, esse realce que o Word executa tão bem. Mas enquanto isso não acontece, que mal há em usar uma boa ferramenta de auxílio?

Bom trabalho e bom feriado!

 

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Um pensamento sobre “Falando do meu processo criativo – repetições

  1. Aula de literatura 2. Amiga, assim você vai ficar pobre. Suas aulas gratuitas de literatura estão contribuindo, em muito, para o meu próprio processo. E vamos em frente.

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