Novembro iluminado! (2) Participação na 20ª Campanha Paixão de Ler e na FLUPP

Nos dias 8 e 10, eu me vesti de leitora, de leitora apaixonada, para falar da obra de uma escritora que eu admiro muito: Lygia Bojunga.

O ano de 2012 é um ano especial para a Lygia. Sua primeira obra, Os colegas,  completa 40 anos. Seus protagonistas, Virinha, Latinha, Flor de Lis, Voz de Cristal e Cara de Pau, abriram uma casa que abraça o mundo, uma casa amarela, que vem recebendo tantos personagens inesquecíveis.

Há dois anos tenho o prazer de participar de um grupo que se reúne na Fundação Cultural Lygia Bojunga para estudar a obra dela.

Discutir e destacar o que tem de ímpar na obra de Lygia Bojunga é uma tarefa que nos enriquece não só como leitores, mas como escritores também.

Foi por participar desse grupo que fui convidada a homenageá-la em três eventos distintos.

O primeiro aconteceu no dia 8/11, na própria Fundação Cultural Lygia Bojunga, durante evento da 20ª Campanha Paixão de Ler. Eu, Edna Bueno, Lucilia Soares, Ninfa Parreiras e Rachel Facó lemos trechos da obra “Os colegas”, bem como trouxemos nossa visão da importância desse livro de estreia em toda a obra de Lygia e em tudo que ela despertou em seus leitores.

O evento foi divulgado no blog do grupo, que se chama “Encontros do Novo Nicho para Santa”. Visitem e conheçam. O post de divulgação pode ser conferido em:

http://encontrosnovonichosanta.blogspot.com.br/2012/11/os-colegas-na-20-campanha-paixao-de-ler.html.

No dia 10/11, às 10h, na companhia de um grupo de convidados, fizemos juntos a visita “Um Novo Nicho para Santa”, com a presença da Lygia Bojunga, para depois nos reunirmos no mini café-teatro, para uma homenagem à autora e ao seu livro de estreia “Os Colegas”. Eu, Edna Bueno, Lucilia Soares, Ninfa Parreiras, Rachel Facó, José Prado e Luiz Raul Machado nos entregamos como leitores, e, cada um ao seu modo, nos emocionamos ao falar do que o texto de Lygia provocou e ainda provoca em seus leitores durante esses 40 anos.

No mesmo dia, às 14h, seguimos para o Casarão dos Prazeres, para participar da Flupp. A mesa da qual participei, na companhia de Edna Bueno, José Prado, Lucilia Soares, Ninfa Parreiras e Rachel Facó era para falarmos sobre a obra “O Rio e Eu”, de Lygia, que tece em linhas emocionadas sua paixão pelo Rio de Janeiro e Santa Teresa. Mas, diante de uma plateia lotada, decidimos que aquele público interessado iria se encantar tanto quanto ao ouvir o que Virinha, Latinha, Flor de Lis, Voz de Cristal e Cara de Pau tinham para revelar de toda a obra de Lygia Bojunga. E foi assim, cada um, lendo o trecho do primeiro capítulo de Os Colegas, que deixamos ali, na FLUPP, a semente para que todos conheçam a obra dessa fantástica escritora.

 

A minha homenagem como leitora apaixonada de Lygia Bojunga pôde ser mostrada publicamente, mas vem sendo tecida, em silêncio, durante esse tempo, a cada sorriso que ela me desperta. Quando me dei conta que Os Colegas nasceram há 40 anos, completando a mesma idade que eu, resolvi fazer um redondo (como diz a própria Lygia) dessa relação. Assim, comecei a reler a obra dela, na ordem em que foi publicada. E essa releitura me despertou novos olhares, novas paixões, novas descobertas da capacidade doadora dessa grande artista.

Gostaria de ter escrito uma resenha de toda a sua obra, mas temo que não consiga terminar de reler tudo antes de dezembro. Assim, deixo aqui a promessa desse texto que ainda virá, mas com um aperitivo de parte do texto que li nos dias de evento, em homenagem ao livro “Os Colegas”.

“No princípio eram só dois”. Essa é a frase que abre o livro de “Os colegas”, que me remete à primeira frase do livro de João, na Bíblia, que diz “No princípio era o verbo”. Assim, o mundo se fez, pela crença religiosa. E aqui, o mundo dessa casa amarela de Lygia Bojunga também se fez com essa frase. Um mundo que começou com dois personagens, semelhantes, livres, sem preconceitos, que nem se conheciam, mas numa bela cena teatral se descobriram, se nomearam e abriram espaço para outros personagens inesquecíveis.

(…)

Pois é, assim nasce “Os Colegas”. Logo descobrimos que Virinha é aquele que o olho pisca que só vendo, enquanto Latinha vivia com a orelha desabada. Virinha e Latinha também se descobriram. Nesse caso, se descobriram colegas porque acharam algo em comum: eles gostavam de fazer samba e gostavam da vida.

E eu que também nasci em 72, me descobri colega dos colegas porque eu também acho a vida a maior. Desconfio, inclusive, que muito antes, eles viraram colegas da própria Lygia, pelo mesmo motivo.

Mas os colegas ainda não estão completos.

Um dia, na praia, apareceu Flor-de-Lis, uma cadelinha de casaco de veludo e uma porção de pulserinhas nas patas. Vinha toda perfumada e com um laço de fita na cauda. E vinha fugida. Fugida desse luxo em excesso, de uma vida com a qual não se identificava; e só sossegou quando conseguiu furar uma onda e se limpar de uma descrição que não era sua. E entendeu que sua era aquela turma. E com eles ficou. E como nenhum deles sabia o que era lis, ficou se chamando apenas Flor.

O quarto integrante apareceu num dia frio e chuvoso. Os três colegas foram se abrigar debaixo de um banco e encontraram o Ursíssimo Voz de Cristal. Ursíssimo porque era um urso realmente enorme. Voz de Cristal porque tinha uma voz fininha igual agulha. Ele também tinha algo em comum com Flor. Fugiu do Jardim Zoológico, não porque era mal-tratado, mas porque de tanto ouvir que o mundo era um lugar ótimo, resolveu conferir se era mesmo. Mas coitado, mal fugiu, começou a chover e ele não viu nada do mundo. E como os colegas também achavam a vida e o mundo muito legais, o mais natural era que Voz de Cristal também fizesse parte daquela turma.

O último colega foi encontrado por acaso. Aliás, o acaso aprontou com esse pobre coelho. Um coelho de cara fechadíssima, que Flor achou que estivesse perdido, mas ele tratou logo de esclarecer:

 

─ Eu não me perdi, não. Me perderam, sabe como é?

 

Nós não sabemos. Ou sabemos e nem sempre prestamos atenção. Mas a história desse coelho está aos montes por aí. E uma delas grudou no olhar de Lygia, que emprestou vida para esse personagem. Então, nada melhor do que deixar que ele explique essa vida de perdição, numa das passagens mais tocantes desse livro:

(… Convido os leitores a ler o trecho do primeiro capítulo, no qual, Cara de Pau conta a sua história… )

A sensação que se tem ao ler esse livro é que estamos caminhando de mãos dadas com cada um dos cinco. Que vontade de abraçar o Cara-de-pau e dizer pra ele que o mundo não está perdido não.

Os colegas trouxeram um universo próprio, ao mesmo tempo em que nos colocaram como colcha estendida o universo que passa aos nossos olhos, mas às vezes não cola.

Fico pensando quem deu origem a esse livro. E quase posso imaginar a Flor colando na Lygia, assumindo o posto de líder dos colegas, de todas essas histórias que nos encantam há 40 anos. Vejo Flor assumindo essa liderança para contar como Cara-de-pau encontrou a sua turma, pois se todos os personagens se modificaram, certamente foi ele quem mais teve que aprender novos caminhos.

Os colegas inauguraram um mundo de cor amarela. Um mundo em que tudo é possível. Nesse livro, temos pela primeira vez os temas fortes que irão nos acompanhar nas diversas casas criadas nesses 40 anos.

Temas como a própria casa com seus esconderijos, com a capacidade de cismarmos que ela é o que quisermos, onde quisermos e como quisermos, como a casa da madrinha, a casa de Ana Paz ou a casa de “A Troca e a Tarefa”.

É o cavar para descobrir, desvendar ou salvar como os irmãos Garcia que salvam Virinha e Latinha da prisão, ou o tatu Vítor de O Sofá Estampado.

O teatro volta com a Angélica, com a Ella de Querida, ou com o monólogo “O Livro: um encontro”, que a própria Lygia confessa que foi uma recaída sua.

Ah, e essa história de cismar é bem coisa dos moradores da maioria das casas.

A generosidade em falar de sua técnica, tema tão recorrente em todos os livros.

Sem contar a forma mágica de tratar dos assuntos pra lá de sérios, como a miséria, o abandono, a violência, a amizade, a aceitação de diferenças.

E pra fechar, a fixação por um bolso ou um botão, inaugurado com Cara-de-Pau, emprestado para a Raquel, ou para abotoar as ideias de Angélica ou do pavão da casa da madrinha.

Ah, o bolso! Só posso dizer que concordo com esse coelho. É tão difícil viver sem um bolso. É tão difícil viver sem ter todos esses colegas por perto. Por isso que vou confessar um segredo. Tem uma frase que virou o hino dos colegas-leitores-apaixonados-pelas histórias dessa casa amarela:

“Lygia, achamos você a maior!”

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