Fazer literário: há regras? O que esperar das oficinas literárias?

Leitura

O fazer literário não tem regras. E, ao mesmo tempo, tem dezenas.

Quando nós, escritores, nos colocamos diante de uma folha em branco, seja ela virtual ou não, não pensamos nos diversos mandamentos que devemos seguir para criar esse mundo ficcional, mas a cada linha criada, tudo que lemos, aprendemos e apreendemos até aquele instante, estará lá, nos conduzindo para um caminho mais ou menos literário.

A lapidação de um texto literário se dá pela experiência, pela internalização do que acreditamos ser o melhor para ele. Acreditar. Esse é o verbo. É preciso acreditar no que estamos escrevendo, na verdade que queremos passar por meio das linhas e entrelinhas de um texto. É uma escolha. De nada adianta entrarmos em oficinas literárias, lermos centenas de páginas de livros de teoria literária, se não acreditarmos, se não tomarmos para nós, como verdade, o que os últimos séculos vem apontando como o melhor caminho para se chegar a um resultado esteticamente mais artístico. Entender esse caminho literário é entender um caminho que leve a um escrito embasado na arte, no fazer artístico, no lapidar de uma matéria-prima inicialmente bruta para chegar à criação de um produto diferente e único.

Remexendo meus arquivos, descobri muitas anotações das oficinas literárias das quais participei. Lembro como, lá no início, quando avançava ainda sentindo uma venda nos olhos, sentindo sob os pés um material invisível e indescritível, era muito mais afetada pelas incertezas do que pelas certezas que desejava transmitir com meu texto.

Era fácil ouvir “isso não deve ser feito”, mas o difícil era entender como eu poderia obter aquele resultado, como poderia não voltar a fazer o “indevido”. E só consegui alcançar esse degrau de entendimento, de maturidade, no dia em que acreditei que “não deveria fazer, pois assim meu texto se tornaria melhor”.

Esse é o maior desafio de um escritor iniciante. Entender e acreditar.

Há muitos benefícios em se frequentar uma oficina literária. Não aprendemos a olhar apenas o nosso texto, aprendemos a olhar o texto do outro. De forma crua, aprendemos com o erro alheio. De forma crua, aprendemos com a hesitação alheia. O maior benefício de uma oficina literária é descobrirmos como desconstruir um texto, entendendo e desvendando o que de mais “oculto” encontra-se num texto de ficção.

Tive muitos professores especiais. Mestres na arte de dividir conhecimento, de apontar caminhos. Antes de pisar na minha primeira oficina literária, eu já escrevia, eu já participava de concursos literários, e já havia sido premiada em alguns deles. Mas nem assim deixei me sentir insegura ao chegar à minha primeira “aula”.

Aprendi muito, não só com os mestres que se propuseram a dividir suas experiências, mas com os colegas. Colegas com mais ou menos bagagem literária do que a minha, mas com a mesma intensidade para escrever seus textos.

Tive a honra de ouvir e absorver ensinamentos de Livia Garcia-Roza, Marcelo Moutinho, o saudoso Moacyr Scliar, José Castello, Luiz Ruffato e Claudia Lage. Hoje, amigos; hoje, companheiros de estrada; hoje e sempre, pessoas fantásticas que terão meu eterno carinho e gratidão por tudo que me ajudaram nesse processo.

Sinto-me, no presente, muitos degraus acima do primeiro que pisei, do primeiro onde estava a menina de 9 anos que se apaixonou pela literatura e escreveu seus primeiros poemas. Muitos degraus acima da mulher de 30 anos que decidiu resgatar essa paixão pela literatura e transformá-la numa profissão, num sopro de vida, num objetivo para todo sempre.

Hoje, já não preciso das anotações que acumulei durante anos de estudo. Elas estão dentro de mim, porque acredito nelas. Mas sei que há muitos escritores iniciantes que ainda não encontraram essa verdade. Por isso, antes de rasgar os inúmeros papéis que encontrei no fundo do armário, resolvi escrever esse post. Resolvi dividir algumas dessas anotações com vocês, deixando um pouco de como eu as enxergo hoje. Quem sabe possa vir a ser uma luz para quem estiver começando nessa estrada literária.

1) Verossimilhança com a realidade

Essa é a parte mais fácil de alcançarmos. Ninguém quer escrever um texto mentiroso. E alguém há de me perguntar: Como não, se todo texto ficcional é uma grande mentira? E eu respondo: Não, não é uma grande mentira, é uma grande fantasia. É uma versão que extraímos da realidade. Uma versão fantasiosa, ficcional, do que poderia ser ou do que realmente é, através do nosso olhar. Mas essa versão não pode ser mentirosa, não pode ter falcatruas. Não pode construir um universo que não seja crível. Podemos criar um mundo paralelo, um futuro avesso ao que conhecemos, mas não podemos criar um mundo em que facilmente apontamos situações inverossímeis.

Basta um pouco de pesquisa, basta percebermos, por exemplo, que não podemos colocar Elvis Presley numa festa que acontece nos anos 2000, a não ser que estejamos falando de um sósia dele, ou estejamos escrevendo um livro que busque provar, mesmo por meios ficcionais, que Elvis não morreu.

Recupero um texto de um ex-colega de oficina, que traz a descrição de um parto num casebre, em meados do século passado. Em determinado momento, o narrador diz que a personagem “apaga a luz”. A pergunta é: a época em que está sendo retratada já tinha luz elétrica? Se não tinha, corremos o risco de toda a magia da descrição ser desmentida por um deslize de misturar a verdade ficcional com a mentira da realidade.

Ao escrevermos um texto, precisamos estar atentos a esses detalhes, pois a mente do leitor estará atenta a esses “deslizes”. É como se nos sentássemos a frente da tevê, para assistirmos a uma novela do início do século passado, e, de repente, uma personagem tirasse do bolso um cigarro que só foi fabricado cinquenta anos depois.

Na leitura de um texto, um cenário, um pensamento ou um diálogo inverossímeis saltarão a nossa frente, dizendo que na vida real é improvável acontecer algo semelhante (mesmo sabendo que nada é impossível nessa mesma vida real). Contudo, na vida ficcional só existe espaço para o mais coerente.

E para reforçar, vale deixar aqui uma das definições que ouvi sobre o tema:

“Verossimilhança não é semelhança com o real, mas é a possibilidade do real, em que se estabelece uma convenção para que se acredite que aquilo é possível”.

2) Clichês

Talvez esteja aqui a maior dificuldade de um escritor iniciante. Muitos devem achar que a perseguição aos clichês de um texto não passa de uma perseguição gratuita ao próprio escritor. Mas posso garantir: não é. É mais do que isso. Eliminar os clichês de um texto é nada menos que a busca por um texto mais encantador, mais instigante.

É comum ouvirmos no nosso dia a dia frases como “ficou pensando na morte da bezerra”, “foi levada às raias da loucura”, “respondeu em alto e bom som”, “ficou a ver navios” ou “quem está na chuva é pra se molhar”.

Nossos ouvidos, acostumados a todas essas frases, perdoam as inúmeras repetições que trazem sempre o mesmo sentido, perdoam essa massificação do mesmo significado, que, por isso mesmo, quase anulam o real conteúdo. Mas quando estamos lendo um texto, parece-nos que essas imagens não nos dizem mais nada, apenas o banal, o banal que ouvimos todos os dias.

Então, quando encontramos um texto que passa a mesma informação de uma forma diferente, original, com uma imagem nova, é como se nosso cérebro fosse estimulado, fosse levado a um novo lugar, capaz de relaxar, de buscar um lugar fora da curva, que nos fará pensar, sorrir, se conectar com o texto. Nesse caso, teremos o mesmo deslumbramento que qualquer pessoa sensível terá diante de uma peça artística.

Para exemplificar, leia as duas frases abaixo. Qual desperta em você melhor sensação?

a) Saí do quarto. Deixei Beth pensando na morte da bezerra.

b) Ao sair do quarto, o olhar de Beth já estava voltado para o pássaro pousado na amendoeira. Um olhar que se congelava no passado.

3) Estereótipos

Não somos obrigados a descrever as características físicas de uma personagem. Mas se o fizermos, é preciso que seja mais do que os estereótipos que estamos acostumados a ver nas novelas, em papos de bar ou em livros de banca de jornal.

Leia a frase: “Ele me puxou para junto do seu peito largo e musculoso”.

O que ela lhe diz de diferente? O que o escritor deseja dizer ao leitor, ao escrever que o peito desse homem era “largo e musculoso”? O que o escritor deseja passar de mais importante nessa cena? Quantos “peitos largos e musculosos” conhecemos, que valha a pena olharmos para essa personagem de uma forma diferente?

4) Repetições com o mesmo campo semântico

A não ser que o escritor esteja construindo uma narrativa, propositalmente com termos de mesmo valor semântico, porém com um objetivo de estabelecer pequenas diferenças que levarão a uma ideia de crescimento, usar termos iguais ou muito similares semanticamente, no mesmo parágrafo ou parágrafos vizinhos, pode soar ao leitor apenas como uma pobreza vocabular.

Veja o exemplo:

“(…) a roupa ainda macia e cheirando a amaciante lavanda. (…) o edredom grosso e macio, pois faço questão de uma coberta grande, bem grossa e ultramacia.” 

Que impressão você tem ao ler esse texto? Você consegue sentir o eco dos mesmos termos?

 

Por hoje, é só. Fecho esse texto com a impressão que tenho hoje da escrita.

Escrever é treinar o ouvido, a sensibilidade, a mente. Escrever é treinar nosso poder de enxergar o mundo com um olhar inédito.

Num próximo post, trarei para vocês outras anotações que encontrei no fundo do meu armário!

 

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Um pensamento sobre “Fazer literário: há regras? O que esperar das oficinas literárias?

  1. Pingback: [Fazer literário] Está comprovado: escrever melhor faz bem ao cérebro! | Canastra de Contos - diário (não tão diário assim) da escritora Ana Cristina Melo

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