[Fazer literário] Aprendendo a revisar seus textos – Parte 1

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Para a maioria dos escritores (digo maioria, pois alguns trabalham página a página até chegar à perfeição), colocar o ponto final em um texto significa tão somente começar tudo de novo. O ponto final apenas indica o fim de uma primeira etapa, na qual a história enfim saiu da nossa imaginação, mas ainda precisa de muitas revisões para se tornar um texto literário. Essa primeira versão, em geral, sai torta, cheia de imperfeições. E é então que começa o trabalho de lapidar, tirar os excessos, consertar o que está estranho e imperfeito.

A forma de revisar é própria de cada escritor. Eu faço isso por camadas. Se não for assim, me perco, e a chance de deixar escapar alguma coisa se torna muito maior. Em cada camada, me preocupo com um tipo de revisão. Claro que, durante a revisão de uma camada, percebendo algo previsto para outra etapa, já corrijo (se for rápido), ou marco para uma revisão futura.

Exemplo: Estou revisando o enredo e percebo uma repetição. Se a solução não vier de primeira, marco as repetições, para corrigir só na revisão de linguagem.

Começo minha revisão pelo enredo. É hora de buscar todos os fios soltos, de ter certeza que nada está inverossímil. Uma vez satisfeita, é hora de lapidar a narrativa: as frases precisam estar no ritmo; o ponto de vista tem que estar ajustado e adequado à história; a linguagem dos personagens precisa estar coerente; os clichês são caçados, sem piedade; o olhar precisa ficar atento às repetições muito próximas, às rimas, às aliterações. Por fim, cuido da correção da querida língua portuguesa. É o momento da ortografia e da gramática.

E acreditem, mesmo com todas essas preocupações, ainda escapa alguma coisa. Escapa porque talvez o texto fique de molho menos tempo do que deveria, porque nosso olhar está viciado, porque fazemos mil coisas ao mesmo tempo, porque sempre precisamos de um segundo olhar sobre nosso original.

Mas não é por isso que vamos relaxar. O ideal é que o texto siga para a editora o mais correto possível. Sim, há revisores por lá, mas o esperado não é que façam um copidesque do seu original.

Então, deixo aqui alguns tópicos para vocês ficarem atentos na revisão de seus textos:

1. Uso do agora

Deve-se tomar cuidado com o uso do “agora”, pois é uma palavra que presentifica demais. Se eu estou narrando um texto no passado, é estranho usar o agora, a não ser que seja um discurso indireto, no qual estou reproduzindo o que foi dito pelo personagem, com ou sem marcação.

2. Cuidado para não exagerar no uso das aspas

3. Verbo dicendi

Em um diálogo, podemos usar um verbo dicendi (verbo de declaração), para incluir uma intervenção do narrador, indicando quem está falando, o sentimento de alguém ou demonstrar alguma ação na cena. Mas existem algumas regras no uso de textos declarativos, intercalados ou não nos diálogos.

1) O texto de intervenção do narrador deve começar em minúscula, exceto no caso de nomes próprios que peçam a maiúscula.

Exemplos:

– Vamos sair daqui, turma! – ordenou Fred. (A Turma do CP-500)

– Você vai dormir aí – disse, apontando a cama nova e estabelecendo os limites. (Caixa de desejos)

– Ora, cancela o passeio quando ele chegar – Karla abriu a sessão de terapia. (De volta à caixa de desejos)

2) O ponto final deve ser colocado no final da intervenção do narrador.

Exemplo:

– Ah, dá um… tempo – reclamou Lena, ofegante. – Não é à toa que os alunos não leem. (A Turma do CP-500)

– Tá certo – concordou Chumbinho. – Só que aqui vai dar na vista. É melhor lá no banheiro. (A Droga da Obediência)

 

3) No caso de vírgula no meio do diálogo, usada para inserir a intervenção do narrador, ela deve ser colocada após o último travessão.

Exemplo:

– Isso é ruim, galera – concluiu Fred –, pois essa gravação poderia ser uma pista importante. (A Turma do CP-500)

 

4) A exceção acontece com o ponto de exclamação ou interrogação, que deve encerrar a frase antes da intervenção do narrador.

Exemplo:

– É mesmo? – sorriu o diretor. – E qual é ela? (A Droga da Obediência)

– Muito prazer! – respondi com cara de idiota. – O que veio fazer no Rio? Só procurar por ela? (De volta à caixa de desejos)

– Você está triste? – ela me perguntou. (Caixa de desejos)

 

5) Não use “falar” como verbo dicendi.

Sempre li que dizer, falar, perguntar, responder, entre outros, eram verbos dicendi.

Contudo, nas últimas revisões dos meus livros (de editoras diferentes), reparei que toda vez que eu usava “falou Fulano”, a revisora trocava para “disse Fulano”.

Fui pesquisar o motivo e descobri muitos textos sobre verbos dicendi, que entre eles trazia o verbo falar. Mas encontrei a matéria http://colunas.gazetaweb.globo.com/platb/dicasdeportugues/2008/04/04/dizer-e-falar, alertando que o verbo falar não é um verbo declaratório.

Então, meu conselho é: evitem o verbo falar como verbo dicendi.

 

4. Números e numerais

– Os números até dez são escritos por extenso e não em algarismos. Acima de dez, usa-se o numeral. Opta-se também por usar o extenso para cem ou mil.

Exemplo: zero, um, dois, dez, 11, 12, cem, mil.

– Números próximos devem manter a mesma forma.

Exemplo: “5 e 20” ou “cinco e vinte”.

Obs: Pode ser que a editora opte por trabalhar com uma das formas.

– As datas são grafadas com algarismos e não deve usar ponto para separar o milhar do ano. Contudo se a data for significativa, pode adotar os dois formatos.

Exemplo: 22 de abril de 1500 / Primeiro de Maio ou 1º de Maio

5. Pleonasmos e cacófatos

Fujam dos pleonasmos e dos cacófatos.

Exemplos de pleonasmos: há cinco meses atrás; inaugurar novos hospitais; subir para cima; lançar um novo livro; ganhe grátis; conviver junto; acabamento final.

Exemplos de cacófatos: ela tinha; uma maneira; por razão; nunca mais; por causa.

 

Num próximo post, trarei novas dicas.

Abaixo os livros dos quais tirei os exemplos:

– A Droga da Obediência (Ed. Moderna), de Pedro Bandeira

A Turma do CP-500: o mistério da casa de pedras (Ed. Escrita Fina), de Ana Cristina Melo

– Caixa de desejos (Ed. Tordesilhas), de Ana Cristina Melo

– De volta à caixa de desejos (Ed. Tordesilhas), de Ana Cristina Melo

 

 

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