[Fazer literário] Aprendendo a revisar seus textos – Parte 1

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Para a maioria dos escritores (digo maioria, pois alguns trabalham página a página até chegar à perfeição), colocar o ponto final em um texto significa tão somente começar tudo de novo. O ponto final apenas indica o fim de uma primeira etapa, na qual a história enfim saiu da nossa imaginação, mas ainda precisa de muitas revisões para se tornar um texto literário. Essa primeira versão, em geral, sai torta, cheia de imperfeições. E é então que começa o trabalho de lapidar, tirar os excessos, consertar o que está estranho e imperfeito.

A forma de revisar é própria de cada escritor. Eu faço isso por camadas. Se não for assim, me perco, e a chance de deixar escapar alguma coisa se torna muito maior. Em cada camada, me preocupo com um tipo de revisão. Claro que, durante a revisão de uma camada, percebendo algo previsto para outra etapa, já corrijo (se for rápido), ou marco para uma revisão futura.

Exemplo: Estou revisando o enredo e percebo uma repetição. Se a solução não vier de primeira, marco as repetições, para corrigir só na revisão de linguagem.

Começo minha revisão pelo enredo. É hora de buscar todos os fios soltos, de ter certeza que nada está inverossímil. Uma vez satisfeita, é hora de lapidar a narrativa: as frases precisam estar no ritmo; o ponto de vista tem que estar ajustado e adequado à história; a linguagem dos personagens precisa estar coerente; os clichês são caçados, sem piedade; o olhar precisa ficar atento às repetições muito próximas, às rimas, às aliterações. Por fim, cuido da correção da querida língua portuguesa. É o momento da ortografia e da gramática.

E acreditem, mesmo com todas essas preocupações, ainda escapa alguma coisa. Escapa porque talvez o texto fique de molho menos tempo do que deveria, porque nosso olhar está viciado, porque fazemos mil coisas ao mesmo tempo, porque sempre precisamos de um segundo olhar sobre nosso original.

Mas não é por isso que vamos relaxar. O ideal é que o texto siga para a editora o mais correto possível. Sim, há revisores por lá, mas o esperado não é que façam um copidesque do seu original.

Então, deixo aqui alguns tópicos para vocês ficarem atentos na revisão de seus textos:

1. Uso do agora

Deve-se tomar cuidado com o uso do “agora”, pois é uma palavra que presentifica demais. Se eu estou narrando um texto no passado, é estranho usar o agora, a não ser que seja um discurso indireto, no qual estou reproduzindo o que foi dito pelo personagem, com ou sem marcação.

2. Cuidado para não exagerar no uso das aspas

3. Verbo dicendi

Em um diálogo, podemos usar um verbo dicendi (verbo de declaração), para incluir uma intervenção do narrador, indicando quem está falando, o sentimento de alguém ou demonstrar alguma ação na cena. Mas existem algumas regras no uso de textos declarativos, intercalados ou não nos diálogos.

1) O texto de intervenção do narrador deve começar em minúscula, exceto no caso de nomes próprios que peçam a maiúscula.

Exemplos:

– Vamos sair daqui, turma! – ordenou Fred. (A Turma do CP-500)

– Você vai dormir aí – disse, apontando a cama nova e estabelecendo os limites. (Caixa de desejos)

– Ora, cancela o passeio quando ele chegar – Karla abriu a sessão de terapia. (De volta à caixa de desejos)

2) O ponto final deve ser colocado no final da intervenção do narrador.

Exemplo:

– Ah, dá um… tempo – reclamou Lena, ofegante. – Não é à toa que os alunos não leem. (A Turma do CP-500)

– Tá certo – concordou Chumbinho. – Só que aqui vai dar na vista. É melhor lá no banheiro. (A Droga da Obediência)

 

3) No caso de vírgula no meio do diálogo, usada para inserir a intervenção do narrador, ela deve ser colocada após o último travessão.

Exemplo:

– Isso é ruim, galera – concluiu Fred –, pois essa gravação poderia ser uma pista importante. (A Turma do CP-500)

 

4) A exceção acontece com o ponto de exclamação ou interrogação, que deve encerrar a frase antes da intervenção do narrador.

Exemplo:

– É mesmo? – sorriu o diretor. – E qual é ela? (A Droga da Obediência)

– Muito prazer! – respondi com cara de idiota. – O que veio fazer no Rio? Só procurar por ela? (De volta à caixa de desejos)

– Você está triste? – ela me perguntou. (Caixa de desejos)

 

5) Não use “falar” como verbo dicendi.

Sempre li que dizer, falar, perguntar, responder, entre outros, eram verbos dicendi.

Contudo, nas últimas revisões dos meus livros (de editoras diferentes), reparei que toda vez que eu usava “falou Fulano”, a revisora trocava para “disse Fulano”.

Fui pesquisar o motivo e descobri muitos textos sobre verbos dicendi, que entre eles trazia o verbo falar. Mas encontrei a matéria http://colunas.gazetaweb.globo.com/platb/dicasdeportugues/2008/04/04/dizer-e-falar, alertando que o verbo falar não é um verbo declaratório.

Então, meu conselho é: evitem o verbo falar como verbo dicendi.

 

4. Números e numerais

– Os números até dez são escritos por extenso e não em algarismos. Acima de dez, usa-se o numeral. Opta-se também por usar o extenso para cem ou mil.

Exemplo: zero, um, dois, dez, 11, 12, cem, mil.

– Números próximos devem manter a mesma forma.

Exemplo: “5 e 20” ou “cinco e vinte”.

Obs: Pode ser que a editora opte por trabalhar com uma das formas.

– As datas são grafadas com algarismos e não deve usar ponto para separar o milhar do ano. Contudo se a data for significativa, pode adotar os dois formatos.

Exemplo: 22 de abril de 1500 / Primeiro de Maio ou 1º de Maio

5. Pleonasmos e cacófatos

Fujam dos pleonasmos e dos cacófatos.

Exemplos de pleonasmos: há cinco meses atrás; inaugurar novos hospitais; subir para cima; lançar um novo livro; ganhe grátis; conviver junto; acabamento final.

Exemplos de cacófatos: ela tinha; uma maneira; por razão; nunca mais; por causa.

 

Num próximo post, trarei novas dicas.

Abaixo os livros dos quais tirei os exemplos:

– A Droga da Obediência (Ed. Moderna), de Pedro Bandeira

A Turma do CP-500: o mistério da casa de pedras (Ed. Escrita Fina), de Ana Cristina Melo

– Caixa de desejos (Ed. Tordesilhas), de Ana Cristina Melo

– De volta à caixa de desejos (Ed. Tordesilhas), de Ana Cristina Melo

 

 

[Fazer literário] Está comprovado: escrever melhor faz bem ao cérebro!

Leitura

Acabo de ler um artigo muito interessante, publicado no The New York Times, em março de 2012, que traz pesquisas que demonstram como nosso cérebro trabalha durante a leitura de um texto ficcional.

O artigo Your Brain on Fiction (“Seu cérebro na ficção”) trata de pesquisas realizadas por neurocientistas, por meio de escaneamento cerebral, indicando os efeitos da leitura em nosso cérebro.

De acordo com o texto, descrições detalhadas de uma cena, uma metáfora evocativa ou uma cena emotiva entre personagens estimulam o cérebro a ponto de influenciar a forma como agimos.

Sabemos que existem áreas específicas no cérebro que são responsáveis por interpretar as palavras escritas. Contudo, os cientistas estão comprovando que mais do que as palavras, as narrativas ativam várias outras áreas cerebrais, fazendo com que o leitor sinta vida no que está lendo.

De acordo com o artigo, palavras como “lavanda”, “canela” e “sabão” não só ativam as áreas cerebrais de processamento de linguagem, mas podem também estimular a área que identifica os cheiros.

Para provar essa teoria, pesquisadores espanhóis, em 2006, desenvolveram um estudo no qual pediam a alguns participantes que lessem palavras associadas ao odor e palavras neutras, enquanto seus cérebros eram escaneados por uma máquina de ressonância magnética funcional. O resultado foi que ao olhar palavras como “perfume” e “café”, o córtex olfativo era iluminado, enquanto que a mesma região permanecia escura diante das palavras “cadeira” e “chave”.

As metáforas também se tornaram fontes de estudo. Pesquisas mostraram que expressões tão corriqueiras que se tornaram clichês não afetam o cérebro como expressões novas. De acordo com alguns cientistas, figuras de linguagens como “um dia difícil” são tão familiares que são tratadas pelo cérebro como meras palavras e nada mais. Já, de acordo com pesquisadores da Universidade de Emory, quando indivíduos realizaram a leitura de uma metáfora envolvendo textura, o córtex sensorial, responsável por perceber a textura através do toque, tornou-se ativo. Metáforas como: “O cantor tinha uma voz de veludo” e “Ele tinha mãos de couro” despertaram o córtex sensorial, enquanto que frases simplificadas como “A cantora tinha uma voz agradável” e “Ele tinha mãos fortes” não tiveram o mesmo resultado.

Na mesma linha de pesquisa, exames mostraram que palavras que descrevem o movimento também estimulam regiões do cérebro distintas do processamento da linguagem. No caso, frases como “João agarrou o objeto” e “Pablo chutou a bola” despertaram atividades no córtex motor, que coordena os movimentos do corpo.

Keith Oaley, romancista e professor emérito de Psicologia Cognitiva da Universidade de Toronto, propôs que a leitura produz uma simulação viva da realidade que funciona na mente dos leitores do mesmo modo que as simulações de computadores são rodadas nos computadores. Assim, o nosso cérebro, ao que parece, não faz muita distinção entre ler sobre uma experiência ou vivê-la, estimulando em ambos os casos as mesmas regiões neurológicas. Portanto, a ficção, com seus detalhes, metáforas imaginativas e descrições atentas de pessoas e ações, oferece uma réplica especialmente rica da realidade. Em síntese, de acordo com pesquisas publicadas pelo Dr. Oaley, indivíduos que leem ficção com frequência parecem mais capazes de compreender e se relacionar com seu semelhante.

Resultados como esses só comprovam o que nós, leitores apaixonados, sabemos há muito tempo: ler é mais do que um prazer, mas também uma grande ferramenta que permite nos tornarmos melhores como seres humanos.

Deixo o convite para vocês lerem o artigo na íntegra. E deixo o post como reflexão para leitores e escritores. Se esse estudo corrobora o prazer que é a leitura, também nos intima a manter esse prazer e esse compromisso em nosso texto. No último post que falei sobre fazer literário, citei a importância de se eliminar os clichês da escrita. E agora trago a prova que precisamos de textos que evoquem muito mais em cada leitor.

Fazer literário: há regras? O que esperar das oficinas literárias?

Leitura

O fazer literário não tem regras. E, ao mesmo tempo, tem dezenas.

Quando nós, escritores, nos colocamos diante de uma folha em branco, seja ela virtual ou não, não pensamos nos diversos mandamentos que devemos seguir para criar esse mundo ficcional, mas a cada linha criada, tudo que lemos, aprendemos e apreendemos até aquele instante, estará lá, nos conduzindo para um caminho mais ou menos literário.

A lapidação de um texto literário se dá pela experiência, pela internalização do que acreditamos ser o melhor para ele. Acreditar. Esse é o verbo. É preciso acreditar no que estamos escrevendo, na verdade que queremos passar por meio das linhas e entrelinhas de um texto. É uma escolha. De nada adianta entrarmos em oficinas literárias, lermos centenas de páginas de livros de teoria literária, se não acreditarmos, se não tomarmos para nós, como verdade, o que os últimos séculos vem apontando como o melhor caminho para se chegar a um resultado esteticamente mais artístico. Entender esse caminho literário é entender um caminho que leve a um escrito embasado na arte, no fazer artístico, no lapidar de uma matéria-prima inicialmente bruta para chegar à criação de um produto diferente e único.

Remexendo meus arquivos, descobri muitas anotações das oficinas literárias das quais participei. Lembro como, lá no início, quando avançava ainda sentindo uma venda nos olhos, sentindo sob os pés um material invisível e indescritível, era muito mais afetada pelas incertezas do que pelas certezas que desejava transmitir com meu texto.

Era fácil ouvir “isso não deve ser feito”, mas o difícil era entender como eu poderia obter aquele resultado, como poderia não voltar a fazer o “indevido”. E só consegui alcançar esse degrau de entendimento, de maturidade, no dia em que acreditei que “não deveria fazer, pois assim meu texto se tornaria melhor”.

Esse é o maior desafio de um escritor iniciante. Entender e acreditar.

Há muitos benefícios em se frequentar uma oficina literária. Não aprendemos a olhar apenas o nosso texto, aprendemos a olhar o texto do outro. De forma crua, aprendemos com o erro alheio. De forma crua, aprendemos com a hesitação alheia. O maior benefício de uma oficina literária é descobrirmos como desconstruir um texto, entendendo e desvendando o que de mais “oculto” encontra-se num texto de ficção.

Tive muitos professores especiais. Mestres na arte de dividir conhecimento, de apontar caminhos. Antes de pisar na minha primeira oficina literária, eu já escrevia, eu já participava de concursos literários, e já havia sido premiada em alguns deles. Mas nem assim deixei me sentir insegura ao chegar à minha primeira “aula”.

Aprendi muito, não só com os mestres que se propuseram a dividir suas experiências, mas com os colegas. Colegas com mais ou menos bagagem literária do que a minha, mas com a mesma intensidade para escrever seus textos.

Tive a honra de ouvir e absorver ensinamentos de Livia Garcia-Roza, Marcelo Moutinho, o saudoso Moacyr Scliar, José Castello, Luiz Ruffato e Claudia Lage. Hoje, amigos; hoje, companheiros de estrada; hoje e sempre, pessoas fantásticas que terão meu eterno carinho e gratidão por tudo que me ajudaram nesse processo.

Sinto-me, no presente, muitos degraus acima do primeiro que pisei, do primeiro onde estava a menina de 9 anos que se apaixonou pela literatura e escreveu seus primeiros poemas. Muitos degraus acima da mulher de 30 anos que decidiu resgatar essa paixão pela literatura e transformá-la numa profissão, num sopro de vida, num objetivo para todo sempre.

Hoje, já não preciso das anotações que acumulei durante anos de estudo. Elas estão dentro de mim, porque acredito nelas. Mas sei que há muitos escritores iniciantes que ainda não encontraram essa verdade. Por isso, antes de rasgar os inúmeros papéis que encontrei no fundo do armário, resolvi escrever esse post. Resolvi dividir algumas dessas anotações com vocês, deixando um pouco de como eu as enxergo hoje. Quem sabe possa vir a ser uma luz para quem estiver começando nessa estrada literária.

1) Verossimilhança com a realidade

Essa é a parte mais fácil de alcançarmos. Ninguém quer escrever um texto mentiroso. E alguém há de me perguntar: Como não, se todo texto ficcional é uma grande mentira? E eu respondo: Não, não é uma grande mentira, é uma grande fantasia. É uma versão que extraímos da realidade. Uma versão fantasiosa, ficcional, do que poderia ser ou do que realmente é, através do nosso olhar. Mas essa versão não pode ser mentirosa, não pode ter falcatruas. Não pode construir um universo que não seja crível. Podemos criar um mundo paralelo, um futuro avesso ao que conhecemos, mas não podemos criar um mundo em que facilmente apontamos situações inverossímeis.

Basta um pouco de pesquisa, basta percebermos, por exemplo, que não podemos colocar Elvis Presley numa festa que acontece nos anos 2000, a não ser que estejamos falando de um sósia dele, ou estejamos escrevendo um livro que busque provar, mesmo por meios ficcionais, que Elvis não morreu.

Recupero um texto de um ex-colega de oficina, que traz a descrição de um parto num casebre, em meados do século passado. Em determinado momento, o narrador diz que a personagem “apaga a luz”. A pergunta é: a época em que está sendo retratada já tinha luz elétrica? Se não tinha, corremos o risco de toda a magia da descrição ser desmentida por um deslize de misturar a verdade ficcional com a mentira da realidade.

Ao escrevermos um texto, precisamos estar atentos a esses detalhes, pois a mente do leitor estará atenta a esses “deslizes”. É como se nos sentássemos a frente da tevê, para assistirmos a uma novela do início do século passado, e, de repente, uma personagem tirasse do bolso um cigarro que só foi fabricado cinquenta anos depois.

Na leitura de um texto, um cenário, um pensamento ou um diálogo inverossímeis saltarão a nossa frente, dizendo que na vida real é improvável acontecer algo semelhante (mesmo sabendo que nada é impossível nessa mesma vida real). Contudo, na vida ficcional só existe espaço para o mais coerente.

E para reforçar, vale deixar aqui uma das definições que ouvi sobre o tema:

“Verossimilhança não é semelhança com o real, mas é a possibilidade do real, em que se estabelece uma convenção para que se acredite que aquilo é possível”.

2) Clichês

Talvez esteja aqui a maior dificuldade de um escritor iniciante. Muitos devem achar que a perseguição aos clichês de um texto não passa de uma perseguição gratuita ao próprio escritor. Mas posso garantir: não é. É mais do que isso. Eliminar os clichês de um texto é nada menos que a busca por um texto mais encantador, mais instigante.

É comum ouvirmos no nosso dia a dia frases como “ficou pensando na morte da bezerra”, “foi levada às raias da loucura”, “respondeu em alto e bom som”, “ficou a ver navios” ou “quem está na chuva é pra se molhar”.

Nossos ouvidos, acostumados a todas essas frases, perdoam as inúmeras repetições que trazem sempre o mesmo sentido, perdoam essa massificação do mesmo significado, que, por isso mesmo, quase anulam o real conteúdo. Mas quando estamos lendo um texto, parece-nos que essas imagens não nos dizem mais nada, apenas o banal, o banal que ouvimos todos os dias.

Então, quando encontramos um texto que passa a mesma informação de uma forma diferente, original, com uma imagem nova, é como se nosso cérebro fosse estimulado, fosse levado a um novo lugar, capaz de relaxar, de buscar um lugar fora da curva, que nos fará pensar, sorrir, se conectar com o texto. Nesse caso, teremos o mesmo deslumbramento que qualquer pessoa sensível terá diante de uma peça artística.

Para exemplificar, leia as duas frases abaixo. Qual desperta em você melhor sensação?

a) Saí do quarto. Deixei Beth pensando na morte da bezerra.

b) Ao sair do quarto, o olhar de Beth já estava voltado para o pássaro pousado na amendoeira. Um olhar que se congelava no passado.

3) Estereótipos

Não somos obrigados a descrever as características físicas de uma personagem. Mas se o fizermos, é preciso que seja mais do que os estereótipos que estamos acostumados a ver nas novelas, em papos de bar ou em livros de banca de jornal.

Leia a frase: “Ele me puxou para junto do seu peito largo e musculoso”.

O que ela lhe diz de diferente? O que o escritor deseja dizer ao leitor, ao escrever que o peito desse homem era “largo e musculoso”? O que o escritor deseja passar de mais importante nessa cena? Quantos “peitos largos e musculosos” conhecemos, que valha a pena olharmos para essa personagem de uma forma diferente?

4) Repetições com o mesmo campo semântico

A não ser que o escritor esteja construindo uma narrativa, propositalmente com termos de mesmo valor semântico, porém com um objetivo de estabelecer pequenas diferenças que levarão a uma ideia de crescimento, usar termos iguais ou muito similares semanticamente, no mesmo parágrafo ou parágrafos vizinhos, pode soar ao leitor apenas como uma pobreza vocabular.

Veja o exemplo:

“(…) a roupa ainda macia e cheirando a amaciante lavanda. (…) o edredom grosso e macio, pois faço questão de uma coberta grande, bem grossa e ultramacia.” 

Que impressão você tem ao ler esse texto? Você consegue sentir o eco dos mesmos termos?

 

Por hoje, é só. Fecho esse texto com a impressão que tenho hoje da escrita.

Escrever é treinar o ouvido, a sensibilidade, a mente. Escrever é treinar nosso poder de enxergar o mundo com um olhar inédito.

Num próximo post, trarei para vocês outras anotações que encontrei no fundo do meu armário!

 

Falando do meu processo criativo – repetições

Crédito: Banco de imagens free (Ms Office)

Qualquer escritor sabe o quanto de verdade existe  no ditado: “Escrever é 1% inspiração e 99% transpiração”. Acredito que esse percentual seja exagerado, mas, por experiência própria, coloco pelo menos 75% na conta do trabalho pesado.

Escrever precisa começar com um flash, uma inspiração, algo que nos abre as portas do mundo imaginário, que nos permite subir uma escada íngreme e espiar esse mundo paralelo, convidando personagens a fazer parte do nosso livro. Esse é o momento do frenesi, da visita ao mundo que todo escritor tem crachá especial para acessar, para captar as histórias, esse outro mundo que pode ser o sótão onde mora a nossa louca imaginação, como diz Rosa Montero em seu livro A louca da casa.

Mas depois que voltamos para nossa cadeira (de preferência, confortável), depois que essa primeira etapa se conclui, o resto é transpiração, trabalho, percepção, recorte. Sim, muito mais apagar do que escrever. De saber desistir, às vezes, de parágrafos inteiros, ou de um capítulo inteiro. Ou de um romance inteiro, como eu já fiz. Sim, já desisti de três romances durante os últimos anos. Mas isso é assunto para outro post. O que importa é que essa é a parte mais difícil, a do desapego, de saber que a primeira versão é um rascunho, tem o âmago do livro definitivo, mas não é o livro definitivo.

É nessa etapa que nossa carreira se desenvolve. Colocar uma história no papel, mesmo que seja um primeiro rascunho ruim, não é para qualquer um. Mas lapidá-lo como se tivéssemos uma pedra bruta nas mãos, isso é o que define um artista. Traduzir o bruto em peça rara, criar um diamante a partir de uma pedrinha de carbono. Essa etapa pede uma percepção aguçada para captar as falhas, lapidar as arestas. E não se lapida apenas o enredo, o traço dos personagens, se lapida a linguagem, a narrativa. Essa percepção está muito relacionada à maturidade de um escritor, pois quanto mais seguro ele está, mais ele detecta as imperfeições, percebe o que pode melhorar, no que derrapou, no que pode ser dito de forma inédita, numa representação que passe longe do clichê.

Nessa fase, buscamos muita coisa, como disse acima. Buscamos também a correção gramatical, as terríveis repetições, os nossos vícios de escrita.

Sim, pois precisamos de uma leitura crítica em que se perceba, no conjunto, aquela palavra ou expressão que parece voltar sempre, em momentos diferentes, no nosso texto. E se não for algo proposital, se não for o âmago do nosso texto (por exemplo, no meu romance há uma palavra chave que é pressentimento), ela deve ser reduzida. Acredite, amigo, ela representa um vício.

E para curar esse vício, uso algumas ferramentas, como o bom “Localizar e Substituir” do Word.

Você nunca usou? Experimente, então.

Vamos supor que você percebe em sua 10ª leitura que está repetindo demais a palavra porta em seu texto. Parece que todas as portas do mundo foram parar no seu romance. Você pode ir no Word, no item de menu Substituir, pedir para pesquisar “porta” e mandar substituir por “porta” com uma formatação especial de realce. Veja exemplo na imagem acima, no qual procuro a expressão “ela”.

Do jeito como está, o Word vai achar “ela” até mesmo no nome “janela”. É interessante para descobrir aliterações internas. Para definir o formato especial de realce, basta clicar na caixa “Substituir por” e clicar no botão “Formatar”, selecionando a opção Realce. Mas repare que você precisa selecionar a cor do realce, no botão semelhante ao que aponto com a seta, que fica na barra de ferramentas, fora da caixa de diálogo. Se não selecionar a cor, ele vai trocar a palavra por ela mesma, sem cor nenhuma.

Com isso, todas as palavras portas serão realçadas com a cor pré-definida de realce, que é como se fosse uma espécie de caneta marca-texto. Depois é só avançar as páginas do seu texto, e perceber a frequência e a proximidade da sua palavra alvo.

Agora, uma dica: antes de uma operação dessas, sempre salve seu texto, ou salve uma versão anterior, pois se você tiver cometido uma falha no comando substituir, não correrá o risco de perder o texto. Exemplo de falha: mandar substituir porta por potra. Acredite, isso acontece.

Dica 2: se quiser voltar uma operação de substituir, basta ir na opção “Desfazer” ou o famoso <Ctrl><Z>.

Dica 3: para voltar o texto à posição normal, sem nenhuma palavra realçada, basta marcar todo texto e clicar no botão de realce, selecionando a opção “Nenhum”, que fica acima das cores.

Dica 4: Experimente essas operações num texto de exemplo, antes de usar no seu texto de ficção.

Dica 5: Só se preocupe em buscar essas palavras quando considerar seu texto fechado. Cuidar disso durante a criação é caminhar três passos pra frente e dois pra trás. Não há mal em lapidar repetições durante o processo de escrita, mas só se for algo que você perceba durante sua leitura.

Estou, atualmente, nesse trabalho árduo de lapidação. Há palavras que pesquiso normalmente como: ele, ela, mas. Todavia, em cada texto, percebo também meus vícios e vou atrás deles. E, nessa busca, melhoramos muito a narrativa. Mas esse tipo de busca só é interessante de fazer quando o texto está fechado.

Certamente chegará um dia que meus olhinhos vão fazer, automaticamente, esse realce que o Word executa tão bem. Mas enquanto isso não acontece, que mal há em usar uma boa ferramenta de auxílio?

Bom trabalho e bom feriado!

 

De palavra a palavra

Banco de Imagens Free (MS-Office)

Uma vez um amigo me perguntou: “De onde vem suas ideias?” “De vários lugares”, eu respondi. De uma caminhada, da leitura de um livro, de um filme, de uma notícia de jornal, ou do nada.

Considere esse nada não como o vazio, mas como a ausência de estímulo. E em seu lugar, uma busca no nosso banco de imagens, sons e sensações. Esse banco que se autoabastece, sem que tenhamos controle sobre ele.

Muitas histórias surgem pra mim desse jeito. Do nada. De um instante em que deixo a minha mente esvaziar, se encher desse nada tão repleto de significados. Como eu disse para minha terapeuta ontem: “Deixo minha mente entrar em alfa”.

E desse nada vem uma palavra, uma frase, um início, um fim. Basta isso. É como uma fagulha que pode se transformar apenas numa pequena fogueira ou num grande incêndio, ou literariamente falando, num exercício de criação ou numa obra-prima. Por várias vezes, uma palavra atraiu outra, que atraiu uma frase, um parágrafo, um capítulo; uma ideia puxou outra, desencadeou uma emoção, uma solução, e, quando percebi, um conto inteiro estava escrito.

É isso. Escrever unindo palavras. Cada palavra um significado. Quanto mais significado tem uma palavra, mais forte será a atração pela próxima. Quando vemos, tem-se nas mãos uma primeira versão. Depois, é trabalho, braçal, de repetição, lapidando, ajustando, até que todas as arestas sejam eliminadas, até que o texto se torne uma peça redonda, lisa e encantada.

Antes de começar esse post, tentei fazer esse exercício. Deixei minha mente nesse estado-alfa, nesse nada que busca tanto dentro de nós. Saiu o texto abaixo. Uma palavra puxou outra, sem que eu soubesse onde ia parar. Claro que é uma primeira versão, um rascunho. Na realidade, não é nada. É apenas um exercício. Mas resolvi dividir com vocês.

Ela se posicionou ao lado. Esperou os passageiros desembarcarem, outros embarcarem, mas quando chegou sua vez, quando estava de frente para o vão livre, pronta a prosseguir, sua perna parou a meio caminho. E retornou. Devagar. Quase ninguém percebeu sua hesitação. Quase. Pois eu percebi. 

A sirene tocou prenunciando o fechamento das portas. Ela aguardou as composições correrem à sua frente, deixando o vazio da espera na plataforma. Eu a vi recuar um passo, dois talvez, ato imperceptível parecendo evitar algum perigo.

Em passos curtos, ela se afastou. Estranhos cruzavam seu caminho, mas ela se mantinha no mesmo lugar. A saída cada vez mais próxima. De repente, senti que precisava lhe falar. Não queria saber o motivo de ela não ter ido. Precisava saber por que tinha ficado. Levantei-me e corri. A plataforma pareceu-me maior do que antes. Sua silhueta já sumia no topo da escada rolante, enquanto eu alcançava apenas o primeiro degrau.

Eu a vi saindo da estação. Como se pressentisse minha presença, ela se virou, e eu vi seu rosto. Como se fosse uma fotografia, ela se registrou pra sempre em minha mente. O rosto moreno, os cabelos pretos e curtos, e o olhar de Medusa que petrificou o batimento acelerado do meu coração.

Ela se perdeu no meio da multidão.

E quando voltei para meu lugar de origem, tinha perdido muito mais do que a próxima composição, tinha perdido a chance de conhecer minha primeira namorada.

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Em tempo, consegui revisar mais um caderno. Desse extraí uma resenha que copiei, a respeito do livro “A secretária de Borges”, de Lucia Bettencourt. Lucia, que se tornou uma amiga querida, é realmente uma escritora de grande talento. Sou apaixonada pelo texto dela. Recomendo para quem ainda não teve oportunidade de ler seu livro. Não vai se arrepender. E olha que não sou só eu que digo. Afinal, “A Secretária” foi o livro ganhador do Prêmio Sesc de Literatura de 2005, na categoria contos.

Sobre a resenha, de Marco Polo Guimarães, que está na orelha do livro, resolvi deixar registrado um trecho aqui:

“Este é um livro que tem imaginação, estilo e consistência.

Imaginação porque as tramas, quase sempre engenhosas – ainda que em diferentes níveis de complexidade -, se solucionam com desenvoltura.

Estilo porque a linguagem, rápida e direta, é bem tecida, sem frouxidões, revelando a busca pela palavra exata e pela expressão o mais funcional possível.

E consistência porque os personagens (por sinal, quase sempre mulheres) se impõem pela verossimilhança, com diálogos, pensamentos e sensações que se desenvolvem naturalmente.

Lúcia B. é uma escritora que sabe usar bem todos os recursos que mobiliza, inclusive detalhes aparentemente gratuitos, mas que, na verdade, servem para conferir uma particular credibilidade ao que é narrado.”